Polícia

Diálogos dão indícios de fraude na antiga gestão da Ulbra

Tentativa de ocultar irregularidades sustentaram a necessidade de apreensões feitas na última semana

Articulações, negociatas e conversas por códigos para tentar ocultar irregularidades praticadas na antiga gestão da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) constam no relatório da Polícia Federal (PF) e sustentaram a necessidade de apreensões feitas na última semana. Transações imobiliárias, compra de automóveis e vínculos contratuais são plano de fundo de um esquema que teria desviado mais de R$ 63 milhões dos cofres da universidade em pouco mais de três anos, conforme a PF.

Diálogos gravados com autorização da Justiça revelam com riqueza de detalhes as negociações em torno de repasses financeiros para mais de 20 empresas de consultoria da instituição. "Temos um caminho árduo pela frente", afirmou o titular da Delegacia de Repressão a Crimes Fazendários da PF/RS, Aldronei Rodrigues, que comandou a Operação Kollector nesta semana. Responsável pela investigação, iniciada há oito meses, o delegado começou a se debruçar sobre os materiais apreendidos em residências e escritórios de 13 pessoas suspostamente envolvidas no esquema.

Num relatório da PF de 67 páginas, ao qual o Correio do Povo teve acesso, "há intensa articulação dos investigados no sentido de que não sejam percebidas as irregularidades outrora praticadas". Além dos pagamentos a empresas de "fachada", a investigação traz indicativos de que ameaças tenham sido feitas para impedir que a verdade sobre as fraudes cometidas viessem à tona. "Eu mesmo fui vítima de ameças anônimas", confessou Paulo Reis, procurador de quatro empresas que prestavam serviços à Ulbra. O empresário foi um dos alvos da Operação Kollector, tendo sua residência em Ivoti vasculhada na quarta-feira. "Não tinha dinheiro em casa. Levaram apenas documentos", contou.

Entre os diálogos gravados pela PF, de junho a novembro, está uma conversa entre o ex-reitor Ruben Becker e o advogado Geraldo Moreira, no dia 21 de setembro. No diálogo, a defesa instrui seu cliente a não revelar em depoimento à Justiça Federal de Canoas que a Indústria Farmacêutica Basa foi comprada com dinheiro da Celsp. A empresa, com sede em Caxias do Sul, foi adquirida em 1995 pelo Centro de Desenvolvimento Tecnológico, formada por pró-reitores da Ulbra na época. O advogado Geraldo Moreira afirmou desconhecer o relatório e não se manifestou sobre a gravação.

Transcrição do diálogo entre Ruben Becker e o advogado Geraldo Moreira, gravado pela PF em 21 de setembro de 2009:

"Geraldo pergunta com que recurso foi comprada a Basa e Ruben diz que foi com o da Ulbra. Geraldo diz que eles têm que evitar dizer isso na audiência. Geraldo diz que eles têm que achar um mecanismo de evitar isso (de falar que a Basa foi comprada com recurso da Ulbra). (...) Geraldo justifica a tese da não vinculação: 'primeiro, porque nós não podemos dizer que foi constituída a Basa em nome de pessoas vinculadas a Celsp porque a Celsp não podia ter. Nesse caso, estaria configurada a fraude, a simulação, e aí o juiz terá razão'."

Diálogo entre Ruben Becker e Juliano Rubens Ribeiro dos Santos, gravado pela PF no dia 22 de setembro:

RUBEN: O que eles, na verdade, tinham que fazer é tirar o Pinho dali.
JULIANO: E enterrar ele de bruços.
RUBEN: Mas que (ininteligível) e pendurado de cabeça para baixo. Certo?
JULIANO: Sabe o que tinha que fazer com ele? Passar uns três dias só botando sal grosso na boca dele. E amarrar e depois desamarrar ele e dizer assim “se tu atravessar a rua tu tá livre, agora se cair na estrada eu vou te matar”. Mas ele dá... olha... não dá 15 passos ele cai.
RUBEN: Mas o problema todo é armar as coisas pra tirar daqui e se possível tirar o cara junto...