Polícia

"Ele tem que sofrer muito na cadeia", diz mãe da jovem mantida em cárcere privado no Rio

Padrasto teria raptado e abusado da enteada por 17 anos

Mãe da vítima quer reencontrar a filha que não vê há 17 anos
Mãe da vítima quer reencontrar a filha que não vê há 17 anos Foto : Vinicius Roratto
Ao ver as notícias de que a filha desaparecida há 17 anos estava no Rio de Janeiro e que teria três filhos do padrasto, a dona de casa, de 49 anos, não ficou totalmente surpresa. “Eu tinha sonhado com isso”, disse, enquanto se preparava para ir à Delegacia da Mulher, em Porto Alegre, prestar depoimento na manhã desta quinta-feira. Olhando para a fotografia da menina ainda criança, a mulher afirmou, chorando, que nunca desistiu de procurar por ela. “Espalhamos cópias dessa fotografia por tudo que é lado”, alegou.

O ex-companheiro da mãe foi preso na última terça-feira em Itaboraí, na região Metropolitana do Rio, após a enteada denunciá-lo por estupro e cárcere privado. Foi então que a dona de casa confirmou o paradeiro da filha, hoje com 28 anos, e tomou conhecimento de tudo o que havia acontecido com ela. “Morte para ele é pouco. Tem que sofrer muito na cadeia”, afirmou.

Segundo as investigações da polícia fluminense, a vítima teria sido mantida em cárcere privado durante anos. Em fevereiro, ela resolveu denunciar o caso, porque uma das filhas dela com o suposto agressor estaria sendo estuprada por um filho dele.

De acordo com mãe, que mora no bairro Bom Jesus, na Capital, ela e o padrasto se conheceram quando trabalhavam como floristas em Alvorada, na região Metropolitana. Algum tempo depois, foram morar juntos e, após seis meses, a mulher foi buscar a filha e o enteado na escola e não os encontrou mais. “A professora disse que o pai tinha levado os dois”, contou. Cerca de duas semanas antes, o homem teria ameaçado a família e obrigado a esposa a declará-lo como pai de seus três filhos. “Ele planejou tudo. Quando cheguei em casa, já tinha levado todas as roupas. Acho que pretendia levar o meu filho menor também”, disse.

Na época, a mãe registrou ocorrência em Alvorada e em Viamão. Além disso, contou com ajuda de amigos para procurar a menina, mas não encontrou. Para aliviar um pouco a tristeza, foi para a casa da irmã em Charqueadas. Anos mais tarde, casou de novo e teve mais um filho. “Me separei, porque achava que meu marido iria fazer o mesmo que o outro e levar meus filhos”, lembrou. A mulher nunca reparou que alguma das crianças estivesse sofrendo algum tipo de abuso. “Jamais imaginei. Senão, não teria colocado para dentro de casa”, falou.

Depois que o padrasto foi preso, a vítima manteve contato com a tia, mas não quis falar com a mãe. “Ela sente mágoa. Acha que eu não fui atrás dela, mas eu procurei”, revelou. Ela planeja reencontrar a filha e dizer o quanto sentiu sua falta. Mesmo tendo passado tanto tempo e de saber que a jovem está diferente, com os cabelos antes negros, agora descoloridos, sabe que irá reconhecê-la. “Mãe sempre sabe. Quero conhecer meus netos. Estou de braços abertos e quero dar apoio”, revelou.

Enteada teria se declarado para o padrasto

Na Delegacia da Mulher em Porto Alegre, a mãe foi ouvida durante uma hora e meia nesta quinta e, conforme a delegada Nadine Anflor, trouxe um detalhe novo ao caso. Segundo ela, a filha escrevia bilhetes para o padrasto. “Existiam bilhetes em que ela se declarava para o padrasto dizendo que se ela pudesse, fugiria com ele”, detalhou a delegada.  "Mas isso não vai fazer com que ele deixe de responder criminalmente”, ressaltou a delegada. Mesmo que a criança tivesse consentido relações com o homem, isso é considerado estupro de vulnerável, já que ela tinha menos de 14 anos.

Além da mãe da vítima, a delegada ouviu também familiares do suspeito. Eles teriam ido ao Rio de Janeiro e visitado o homem há dois anos atrás. “Eles disseram que frequentaram a casa no Rio, conviveram com eles no ano de 2010 e há informações de que ela fazia um curso de informática à noite, o que descaracteriza o cárcere privado, mas a polícia do Rio é que vai investigar isso”, explicou a delegada.

A polícia gaúcha foi designada a auxiliar a investigação do caso que corre no Rio de Janeiro. O conteúdo dos testemunhos tomados no Rio Grande do Sul serão encaminhados nesta sexta-feira para a Delegacia de Polícia de Itaboraí, na região metropolitana do Rio.

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