Um dia antes do segundo suicídio de um pacto de morte investigado pela Polícia Civil, na Serra, a vítima e um grupo de quatro colegas da oitava série da Escola Estadual Ramos Pacheco, bairro Floresta, ingeriram medicamento antidepressivo em sala de aula. O fato foi comunicado para a direção da escola, que imediatamente acionou os pais dos alunos envolvidos.
“Estava tudo tranquilo na escola quando me chamaram para socorrer um aluno que estava passando mal. Ele parecia grogue. Disseram que ele e outras meninas tinham tomado Rivotril 2,5 ml. Eles não falavam coisa com coisa”, revelou a diretora Ângela Becker.
De acordo com ela, os estudantes foram levados para a sala da direção. Os pais foram até a escola, onde participaram de uma reunião de urgência. Por sugestão dos pais, os alunos ficaram em casa e não foram para a aula na sexta-feira, dia do fato. “Ligamos para os pais e todos compareceram. O remédio foi levado por uma aluna que está em acompanhamento psicológico. Ela que repassou aos outros”, disse a diretoria.
De acordo com a diretora, duas das adolescentes ainda não retornaram às aulas. “Os outros estão tendo aulas normalmente”, conta Ângela.
Após a ingestão dos medicamentos (no dia seguinte), uma das jovens teria provocado a própria morte por enforcamento. Seria o segundo suicídio da série. O delegado Gustavo Barcellos revela que a primeira menção sobre o pacto ocorreu quando a adolescente estava sob o efeito do medicamento.
Conforme Barcellos, a menina que levou o remédio para a escola foi ouvida após a morte da amiga e colega de aula. Segundo ele, a adolescente é uma das três que apresenta lesões nos pulsos. “Nós indagamos o que eram os ferimentos e a resposta demonstra a complexidade do caso. Ela disse que era raiva, que tinha feito aquilo por raiva”, afirmou o delegado, que diz nunca ter enfrentado situação semelhante na carreira policial.
Rede de proteção em estado de alerta
Além da Polícia Civil, os órgãos da rede de proteção estão em estado de alerta. Conselho Tutelar, Centro de Atenção Psicossocial (Caps), Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), Centro de Referência da Assistência Social (Cras) de Canela e Gramado estão monitorando os casos e trocando informações com as equipes de investigação. Psiquiatras e psicólogos do Instituto Geral de Perícias (IGP) também devem contribuir com os trabalhos para evitar a ocorrência de novos casos. “Nossa prioridade é preservar vidas. Toda a rede de saúde pública está mobilizada. São casos de meninas com sinais de depressão em que, eventualmente, pode existir negligência familiar”, afirmou a delegada regional Elisângela Melo Reghelin.
Após identificar os adolescentes que teriam feito o pacto, a Polícia Civil pretende apurar as motivações e responsabilidades. O administrador do grupo no aplicativo WhatsApp foi identificado. Segundo a Polícia Civil, outras redes sociais seriam utilizadas para combinar as mortes. Além de celulares das vítimas, a Polícia teve acesso a vídeos em que jovens aparecem cortando os pulsos e a conversas entre adolescentes pela internet.
O delegado Gustavo Barcellos observa que uma das dificuldades da investigação é que os grupos são fechados. “Elas não expressam sentimentos e, talvez por cumplicidade, não mencionam os motivos. No entanto, os depoimentos confirmam que existe o pacto”, concluiu Barcellos.