Polícia

Falsos ídolos ganham espaço em comunidades carentes da Capital

Teréu e Xandi evidenciam adoção do poder paralelo em áreas de ausência do poder público

Teréu e Xandi evidenciam adoção do poder paralelo em áreas de ausência do poder público
Teréu e Xandi evidenciam adoção do poder paralelo em áreas de ausência do poder público Foto : Ricardo Giusti/CP Memória
A idolatria de uma parcela de moradores de uma comunidade com os criminosos não é nova. Em Porto Alegre, entre as décadas de 1970 e 1980, por exemplo, os traficantes conhecidos por Carioca e Anão tinham o apoio do Morro da Cruz. Eles evitavam roubos, estupros e outros delitos, além de promoverem benfeitorias. Na morte de Anão, em 1979, bandeiras pretas foram hasteadas nas casas. Já em 1989, com o aparecimento do corpo de Carioca, enforcado dentro de uma cela da Penitenciária Estadual de Charqueadas, a comunidade do Morro da Cruz ficou novamente de luto. Após ser velado em uma residência, o caixão foi levado em cortejo pelas principais ruas da região. Tiros foram dados em sua homenagem.

As reações diferentes após o assassinato de Teréu chamaram a atenção das autoridades. No condomínio Princesa Isabel, onde vivia o traficante Xandi, morto em janeiro, a notícia foi comemorada na tarde e noite de quinta-feira, prolongando-se na madrugada de sexta-feira com festa, música e fogos de artifícios. Já no Beco dos Cafunchos, território de Teréu, suspeito de ser o mandante da morte de Xandi, a notícia provocou revolta. Foram feitas homenagens ao traficante assassinado dentro da Pasc.

O delegado Emerson Wendt, diretor do Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico (Denarc), entende que a idolatria aos criminosos não é uma característica do RS e nasce dentro de um contexto sociocultural e territorial. Segundo ele, a ausência do poder público nas comunidades periféricas, do ponto de vista sociológico, permite o surgimento deste fenômeno. Wendt diz que o espaço deixado pelo Estado possibilita que os criminosos, sobretudo traficantes, promovam benfeitorias em troca de favores. “A comunidade sente-se querida por ele”, sintetiza o diretor do Denarc.

Na era digital, a glamourização do mundo do crime é mais estimulada e fica evidente, principalmente, através das músicas, como o funk, e pelas redes sociais. “Ajuda o criminoso a ficar famoso”, resume.