Uma investigação da Polícia Civil identificou uma organização criminosa que, segundo as apurações, realizava a invasão de sistemas, fraude eletrônica, compras presenciais com dados de cartões e lavagem de dinheiro. A estrutura investigada era dividida em diferentes núcleos, com integrantes responsáveis desde a obtenção de credenciais obtidas ilegalmente na internet, até a compra e posterior revenda de mercadorias.
A operação, denominada Tessera Signata, foi deflagrada na manhã desta quarta-feira e cumpriu oito mandados de prisão preventiva e 28 de busca e apreensão em cinco municípios de três Estados. As ordens são cumpridas em Viamão, Gravataí e Balneário Pinhal, no Rio Grande do Sul, além de Conselheiro Lafaiete, em Minas Gerais, e Indaiatuba, em São Paulo. Ao menos seis pessoas foram presas.
Segundo a investigação, o esquema começava longe dos estabelecimentos onde as compras eram realizadas. Um núcleo técnico do grupo, localizado em Minas Gerais, pesquisava ambientes da deep web e dark web em busca de credenciais de acesso a sistemas que haviam sido comprometidas e disponibilizadas ilegalmente na internet.
Foi dessa forma, conforme a Polícia Civil, que os investigados teriam obtido uma credencial válida de uma operadora de cartões com sede no Litoral Norte gaúcho.
A empresa administra cartões de crédito, benefícios e cartões corporativos utilizados, entre outras finalidades, para despesas com alimentação, combustível e manutenção de veículos.
Com a credencial em mãos, os investigados teriam acessado remotamente o sistema da empresa. Entre os dias 11 e 12 de novembro de 2025, foram identificadas 217 operações no servidor, envolvendo consultas, alterações e manipulações de informações financeiras.
A partir desses acessos, os investigadores apontam que os criminosos aumentavam artificialmente os limites disponíveis nos cartões. Os dados dos cartões e as respectivas senhas eram então encaminhados para integrantes do núcleo operacional no Rio Grande do Sul.
De posse das informações, integrantes do grupo se dirigiam a estabelecimentos credenciados à operadora, principalmente supermercados de Novo Hamburgo e Xangri-Lá. Sem ter os cartões físicos em mãos, realizavam compras utilizando os dados obtidos ilegalmente.
Entre os produtos adquiridos estavam fardos de bebidas alcoólicas e equipamentos eletrônicos, principalmente caixas de som. Segundo a investigação, os produtos eram posteriormente destinados à revenda.
Repetição de compra chamou atenção
A investigação começou depois que dois integrantes do grupo foram presos em flagrante, em novembro do ano passado, em Xangri-Lá. Na ocasião, os dois teriam comprado uma caixa de som utilizando os dados de um cartão. Depois de a primeira transação ser aprovada, retornaram ao mesmo estabelecimento horas mais tarde para comprar outro equipamento semelhante.
A repetição da operação chamou a atenção dos funcionários, que acionaram a Brigada Militar. Durante a abordagem, foram encontrados elementos que indicavam a utilização fraudulenta dos dados dos cartões, e os dois acabaram presos. A partir daquele flagrante, a Polícia Civil passou a investigar a estrutura por trás das compras.
Os investigadores identificaram um grupo em aplicativo de mensagens utilizado para coordenar as ações. Conforme a apuração, eram compartilhados dados dos cartões, orientações para realização das compras e informações sobre a separação e a guarda das mercadorias.
As notas fiscais também eram mantidas pelos integrantes. Segundo a investigação, além de servirem para controlar os valores obtidos com as fraudes, os documentos poderiam facilitar a revenda dos produtos, dando aparência de origem regular às mercadorias.
A investigação aponta, ainda, a existência de dois núcleos principais. O grupo sediado em Minas Gerais seria responsável pela parte técnica, com obtenção das credenciais vazadas, acesso ao sistema da operadora, alteração dos limites dos cartões e disponibilização dos dados para os demais integrantes.
Já o núcleo gaúcho teria concentrado a parte operacional, incluindo o recrutamento de pessoas, utilização dos cartões, transporte e destinação das mercadorias e movimentação dos valores obtidos.
A Polícia Civil também identificou pessoas que, segundo a investigação, eram recrutadas para ceder contas bancárias pessoais ou empresariais. Em troca, elas receberiam pagamentos.
Os valores provenientes das fraudes eram então transferidos entre diferentes contas, fragmentados e posteriormente sacados em espécie. Para os investigadores, a dinâmica tinha como objetivo dificultar o rastreamento e ocultar a origem dos recursos.
Além das fraudes contra a operadora de cartões, a apuração identificou indícios de que integrantes do grupo também recebiam valores provenientes de golpes praticados por terceiros.
Os recursos passavam por diferentes contas bancárias antes de serem sacados ou novamente transferidos. A Polícia Civil investiga se essa estrutura era utilizada para dar aparência lícita aos valores obtidos por meio dos crimes.
Os materiais apreendidos nesta quarta-feira serão submetidos à análise técnica. A investigação continua para identificar outras possíveis vítimas, integrantes da organização e destinatários dos recursos.