Polícia

Homem é denunciado por feminicídio pela morte de irmão transgênero no Norte do Estado

Conforme o MPRS, caso tenha sido inicialmente enquadrado como homicídio, mas entendeu-se pela incidência do crime de feminicídio

Um homem de 21 anos, apontado como responsável pela morte do irmão, foi denunciado pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) por feminicídio. O caso ocorreu na comunidade de Divino Faxinal, zona rural de Ibiaçá, no Norte do Estado

Conforme o MPRS, a vítima, que tinha 29 anos, era um homem transgênero, foi assassinado com 40 golpes de faca. O crime teria ocorrido na presença da mãe de ambos.

Segundo o promotor de Justiça Miguel Germano Podanosche, responsável pela denúncia, embora o caso tenha sido inicialmente enquadrado como homicídio, o Ministério Público entendeu pela incidência do crime de feminicídio. “A denúncia se deu precisamente pela vulnerabilidade marcante que pessoas do sexo feminino têm nos diversos âmbitos da vida, especialmente o familiar. Nesse sentido, é inegável que pessoas que foram designadas como do sexo feminino no nascimento, mas que se identificam como do gênero masculino, vivenciam situações de vulnerabilidade ainda maiores”, afirmou.

O promotor explica que a denúncia leva em conta a literalidade da lei que instituiu o crime de feminicídio, que exige que o delito contra a vida seja praticado por razões da condição do sexo feminino, e não necessariamente em razão da identidade ou expressão de gênero da vítima. “O caso é um dos primeiros no Brasil em que se discutirá a proteção outorgada pela nova lei do feminicídio, que prevê a maior pena do Código Penal, a pessoas do sexo feminino que apresentam identidade de gênero distinta”, ressalta.

Conforme a denúncia, o crime foi praticado com emprego de meio cruel, em razão do intenso sofrimento imposto à vítima diante da quantidade de facadas. Além disso, ocorreu com recurso que dificultou a defesa da vítima, já que o crime aconteceu em localidade rural, afastada do centro urbano, durante a madrugada e apenas a mãe dos dois se encontrava na residência. “Contexto que reduziu significativamente qualquer chance de reação da vítima ou de intervenção por terceiros para socorrê-la”, diz a denúncia.

O promotor Podanosche apontou duas motivações identificadas ao longo das investigações. A primeira, de natureza imediata, foi considerada fútil: o crime teve início após a vítima reclamar ao acusado que ele estaria atrapalhando o descanso da mãe durante a madrugada. “Foi uma razão banal para desencadear uma ação tão violenta”, destacou.

A segunda motivação tem caráter estrutural e revela profunda crueldade. A partir de informações reunidas pela Polícia Civil e órgãos de proteção à infância e juventude de Ronda Alta e Sarandi, foi possível traçar um histórico de vulnerabilidade da vítima. Desde a infância, ela enfrentou conflitos familiares, passou por duas institucionalizações, tentou suicídio, relatou possível abuso sexual por outro familiar e sofreu rejeição por sua identidade de gênero.

“Esses elementos, somados à brutalidade do crime, indicam que o acusado não aceitava o pertencimento da vítima ao núcleo familiar, o que também evidencia que sua identidade de gênero esteve ligada à motivação do homicídio”, concluiu Podanosche.

Além do crime de feminicídio, o denunciado também responderá pelo abalo emocional causado à própria mãe, que presenciou os fatos. A expectativa do MPRS é de que o réu, preso preventivamente desde o dia 22 de julho, permaneça no sistema penitenciário até o julgamento pelo Tribunal do Júri. Caso condenado nos termos da denúncia, o homem poderá ser sentenciado a uma pena de até 55 anos de reclusão.