Júri do caso Rafael é suspenso após defesa deixar plenário em Planalto

Júri do caso Rafael é suspenso após defesa deixar plenário em Planalto

Indeferimento de perícia em áudio provocou suspensão e nova data será marcada

Felipe Nabinger

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O julgamento que duraria até cinco dias foi resumido a 11 minutos. Foi o tempo aproximado do início da sessão do júri do Caso Rafael, somado ao pedido de questão de ordem da defesa de Alexandra Dougokenski, a sequência de uma forte discussão entre advogados e acusação e a decisão da juíza Marilene Parizotto Campagna de indeferir o pedido de perícia de um áudio de apenas três segundos. Essa medida fez com que a banca de advogados da ré deixasse o recinto, provocando o cancelamento do julgamento que deverá ser remarcado ainda sem uma data definida.

Prevista para começar às 9h30min a sessão do júri, agora suspensa, iniciou com atraso de cerca de meia hora. Já do lado de fora da sede do Independente Futebol Clube, no centro de Planalto, entrevistas de integrantes da defesa davam indícios de uma reviravolta neste sentido.

"Temos um problema técnico terrível e esse júri pode não sair", afirmou o advogado Jean Severo, ao relatar que a defesa encontrou áudio em conversa de celular entre Rafael Winques e o pai, Rodrigo, datado do dia 15 de maio de 2020, às 20h30. Como a hora da morte é apontada na denúncia como ainda nas primeiras horas daquele dia, os defensores defendiam a suspensão do júri e a análise do áudio.

De forma ríspida, defesa e acusação discutiram, precisando ser lembrados pela magistrada que não era momento de debate e não acatou o pedido. Neste momento, a banca formada pelos advogados Marco Aurélio Dorigon dos Santos, Jean de Menezes Severo, Filipe Décio Trelles, Gustavo da Costa Nagelstein, Tomas Antonio Gonzaga, Antônio Prestes do Nascimento e Martin Mustschall Gross deixou o local do julgamento.

“Tem que fazer a perícia, não há outra alternativa. O áudio é do menino e dia 15 ele estava vivo”, afirmou Gustavo Nagelstein, dizendo que a defesa teve conhecimento do áudio apenas no domingo. 

“Manobra diversionista”

“O Ministério Público está revoltado. Essa prova que eles definem como bombástica constava nos autos desde o início, a quase dois anos do processo. Há provas que o menino estava morto naquela data”, rebateu o promotor Diogo Gomes Taborda.

A promotora Michelle Dumke Hufner acredita que a estratégia da defesa devia-se a “certeza da condenação de Alexandra”. “É quase diversionista a manobra da defesa. Certamente por receio do resultado”, corroborou o promotor Marcelo Tubino Vieira. “A comunidade está perplexa e quer respostas. O Rafael precisa descansar”, completou.

Novo julgamento

Conforme o Tribunal de Justiça do Estado, um novo julgamento será marcado em data futura, havendo um novo sorteio para compor o Conselho de Sentença do Tribunal do Júri.

“Não há um prazo legal para isso. Mas naturalmente a magistrada que coordena os trabalhos terá sensibilidade de conferir mais prazo ou menos prazo para uma nova sessão”, analisou o subprocurador-geral de Justiça para Assuntos Institucionais do MP, Júlio César de Melo.

A juíza Marilene Parizotto Campagna deixou o local sem atender a imprensa. Defesa e acusação acreditam que isso deva ocorrer dentro de até 90 dias.

Perícia própria e negação de autoria

Além do áudio, a defesa trabalhava com a linha de negação de autoria do homicídio por parte de Alexandra, buscando imputar ao pai da criança, Rodrigo Winques o crime. Eles alegam que os laudos de necropsia são inconclusivos quanto a data da morte de da vítima.

"Nós continuamos na defesa (de Alexandra). Vamos trabalhar para que se faça uma perícia técnica para confirmar se a voz daquela criança é do Rafael. Se for, e é, tudo muda nesse processo. Podemos ter um cárcere privado ou um sequestro, pois ele estava vivo neste período, dia 15, às 20h30", afirma o advogado Jean Severo. O defensor afirmou que buscará uma perícia particular para analisar o áudio.

O advogado do pai do menino, Daniel Figueira Tonetto, que atua na assistência da acusação, rechaçou qualquer possibilidade de envolvimento do seu cliente, que trajava uma camiseta com uma foto junto ou filho e os dizeres “Justiça por Rafael”. “Não se pode esperar a verdade de uma mulher que mata o próprio filho. O Rodrigo estava em Bento Gonçalves, a cinco horas de viagem. Um pai que perdeu o próprio filho está sendo acusado desse absurdo. É algo indigno e nojento. Esperamos a justiça”, afirmou.

Sobre o áudio, Noeli Batista, tia-avó de Rafael Winques, disse que a voz não seria de Rafael, após a escuta. Emocionada, ela diz que revive o drama familiar de dois anos atrás. "Além de tudo não tivemos a resposta que estávamos esperando da Justiça. Espero que não demore muito e que ela pague pelo que fez", falou.


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