A Polícia Civil indiciou, na quinta-feira, um entregador de 23 anos por suspeita de racismo contra um colega de trabalho, de 20 anos, em Porto Alegre. O caso ocorreu em 25 de junho, em um centro de distribuição de uma plataforma de entregas, localizado em um shopping da Capital.
Conforme a investigação, o suspeito teria desenhado uma sposta caricatura do rosto do colega negro em uma banana e, depois, entregado o objeto a ele. O inquérito foi conduzido pela Delegacia de Polícia de Combate à Intolerância (DPCI).
Responsável pela investigação, o delegado Vinícius Nahan considerou que a própria conduta investigada caracteriza a intenção discriminatória. “O dolo de cometer o crime de racismo ficou bem caracterizado no caso, pois a associação entre pessoas negras e bananas é um dos símbolos mais conhecidos do racismo a nível mundial e a nível local”, afirmou.
O delegado acrescentou que, na avaliação da investigação, não seria possível desconsiderar o significado dessa associação ao analisar o episódio. “No momento em que o indiciado faz o desenho ressaltando as características faciais da vítima em uma banana e entrega para a própria vítima, ele não pode alegar que não teve uma intenção racista”, disse.
De acordo com o relato prestado à polícia, a vítima trabalhava no mesmo local que o suspeito, mas não tinha amizade ou intimidade com ele. A relação entre os dois, conforme declarou, limitava-se a cumprimentos. O jovem também teria relatado que já havia ouvido de outros colegas que o suspeito fazia, supostamente, brincadeiras preconceituosas.
No dia do episódio, o suspeito teria pedido que a vítima olhasse para ele, alegando que precisava observar seus traços para acrescentar detalhes a um desenho. Em seguida, entregou a banana com a caricatura. A vítima afirmou, em depoimento, ter se sentido humilhada e interpretado o gesto como uma ofensa racista.
Ainda conforme a Polícia Civil, o jovem não reagiu diretamente ao suspeito. Ele deixou o local, comunicou o ocorrido à supervisão, fotografou a banana e registrou a ocorrência policial.
Uma testemunha, também colega de trabalho, confirmou ter presenciado o suspeito desenhando o rosto na fruta e entregando-a à vítima. Segundo o relato, o jovem ficou visivelmente indignado e procurou a supervisão. A empresa suspendeu o suspeito e, posteriormente, encerrou o vínculo de trabalho.
Jovem nega intenção racista
Em depoimento, o suspeito afirmou que fez o desenho de forma impulsiva, porque não tinha papel disponível naquele momento. Segundo sua versão, a intenção era se aproximar do colega e iniciar uma amizade.
Ele declarou que é artista e estuda desenho de caricaturas e arte africana. Também alegou que o destaque dado ao nariz e aos lábios fazia parte da técnica de caricatura, que utiliza o exagero de características faciais. O suspeito negou ter tido qualquer intenção racista.
A defesa também contesta a interpretação do episódio. Procurada, a advogada Daniele Cunha Ramos afirmou que o cliente é estudante de desenho e que a escolha da banana teria ocorrido por acaso, já que ele poderia ter utilizado outro objeto para fazer a caricatura.
A advogada disse ainda que o suspeito ficou surpreso com as acusações e com a demissão por justa causa. Segundo ela, a vítima teria achado graça do desenho no momento em que o recebeu e não teria demonstrado descontentamento. A defesa afirma que já apresentou, durante o inquérito, documentos para comprovar que o jovem estuda desenho.
Questionada sobre os próximos passos, a advogada confirmou que o objetivo é demonstrar a inocência do cliente durante o andamento do caso.
O suspeito, de 23 anos, não tinha antecedentes criminais, conforme as informações da investigação. Com o indiciamento, o inquérito segue para as próximas etapas do procedimento criminal. O indiciamento representa a conclusão da autoridade policial sobre a existência de indícios de autoria e materialidade, e não equivale a uma condenação.