* Com informações dos repórteres Álvaro Grohmann e Karina Reif
Uma mistura de tristeza e indignação marcou a homenagem de comerciantes e moradores do bairro Menino Deus ao empresário morto por uma bala perdida durante confronto entre assaltantes e Brigada Militar (BM) na zona Sul de Porto Alegre. Durante 30 minutos, da manhã desta quarta-feira, mais de cem lojas fecharam para lembrar a morte de Elvino Nunes Adamczuk.
Escolas de línguas, imobiliárias, farmácias, bares, cafeterias e outros estabelecimentos paralisaram seus serviços das 9h45min até as 10h15min. Em janelas e sacadas de apartamentos foi possível ver o protesto de moradores do Menino Deus contra o governo gaúcho, que segundo eles deixa de investir na Segurança do Estado. Bandeiras pretas e cartazes foram expostos para externar o luto e a repulsa pelo crime que tirou a vida de Adamczuk.
O coordenador do movimento S.O.S. Menino Deus, Marcelo Machado, criticou a falta de efetivo da Brigada Militar para garantir o policiamento ostensivo na região. Ele explicou que o número de PMs nas ruas já era pouco e com o contingenciamento do governo, responsável pelo corte de horas extras, a situação ficou agravada. Ressaltando que o movimento SOS Menino Deus realizou recentemente uma passeata em prol de mais segurança, Machado disse que os assaltos acontecem até com os criminosos armados de faca. Sobre a morte do empresário, ele avaliou que poderia “ter ocorrido com qualquer um de nós” caminhando nas ruas. Na sua opinião, o confronto não foi provocado pelos policiais militares, mas pelos criminosos que reagiram à abordagem. “Espero que a morte de Elvino Nunes Adamczuk não seja a primeira de várias”, desabafou.
Já o proprietário de uma ótica, Dagoberto Santos, entende que a BM “faz o que pode” mesmo sem efetivo. Constatando que a população está insegura, ele constatou que o comércio está sendo prejudicado seja pelos assaltos como pela queda de clientes temerosos em sair às ruas. “Todos têm uma história de assalto pata contar”, lembrou.
A cabeleireira Ana Maria de Souza possui um salão há 28 anos na avenida Getúlio Vargas. Ela recordou que antigamente se via policiais militares circulando no bairro. Com medo de assaltos, o salão fica sempre chaveado e encerra o expediente mais cedo. Já a gerente de uma farmácia, Eliane Aparecida Dugatto, fechou o estabelecimento e exibiu um cartaz de luto. Também pedindo mais policiamento, ela reconheceu que os PMs se arriscam, com salários parcelados, para enfrentar a criminalidade.
Sepultamento
Amparada pelos filhos, a viúva Adriana Paula Adamczuk, 43 anos, sepultou o marido no Cemitério São Miguel e Almas em Porto Alegre. Ela foi confortada por parentes, amigos, vizinhos e até desconhecidos. Todos estavam comovidos e indignados com a morte do comericiante que morava e mantinha a padaria há 14 anos no Menino Deus. A família, incluindo os filhos Willian, 26, Wagner, 24 e Rafaella, 12, atendia os clientes e era muito querida na região. “Ele tratava todo mundo bem”, afirmou a vizinha Mirian Mello da Costa, 53 anos. Ela viu tudo da sacada. “Quando ouvi barulho de tiro, disse para meu filho correr para dentro”, contou.
Adamczuk já havia preparado o carro para ir para praia junto com a mulher e amigos. Saiu para levar os cães para passear por volta das 22h, como fazia todos os dias. Quando foi atingido, Adriana já gritou o nome do companheiro, com quem mantinha relacionamento há 28 anos. “Parece que ela já sabia. Fomos para a rua e a cadela Belinha estava solta. O Preto ficou ao lado dele”, contou o amigo Ricardo Wotter, 55 anos, que iria para o Litoral Norte junto com eles. Após ficar internado no Hospital de Pronto Socorro (HPS), o comerciante morreu na terça-feira.
Apesar de avaliar que sempre houve criminalidade no bairro, Wotter acredita que a incidência aumentou. O estabelecimento da vítima já havia sido assaltado na semana passada. “Depois das 20h, não dá mais para sair para a rua. Tem que chamar a Força Nacional e o Exército deve ir para as ruas. Não existe policiamento ostensivo”, afirmou o aposentado Renato Souza, 63, que também é morador do Menino Deus, fazendo referência à declaração de ontem do prefeito de Porto Alegre, José Fortunati.
Na opinião do jornalista Kleber Léo Torres, 52, os episódios de linchamento que vêm ocorrendo nos últimos meses são reflexo da falta de segurança. “Chega uma hora que a população se revolta”, declarou.
Adamczuk era de uma família de dez irmãos de Dom Feliciano, na região Centro-Sul. Veio para a Capital ainda criança, segundo a irmã Regina Adamczuk, 59 anos. “Como eu era a mais velha, criei todos eles. É difícil de entender uma morte assim”, declarou ela, que também tem comércio no bairro Jardim Botânico. “Somos muito unidos. Sempre que um precisa, todos correm para ajudar. Ele era como o meu pai, que sempre nos ensinou a ser honestos e ter caráter”, assinalou. Conforme ela, a vítima e a esposa se conheceram quando trabalhavam em um supermercado no bairro Passo da Areia. Ela tinha 14 anos e contou que o marido foi seu primeiro namorado. “Eram muito companheiros”, disse.
Crime
Adamczuk passeava com seu cão na esquina das avenidas Ipiranga e Getúlio Vargas, quando foi atingido pela bala perdida, disparada durante uma troca de tiros entre uma guarnição da Brigada Militar (BM) e quatro criminosos, responsáveis por assaltar o supermercado Nacional da Aureliano de Figueiredo Pinto.
Mais de cem lojas fecham em homenagem a comerciante morto
Dono de padaria foi sepultado nesta quarta em Porto Alegre