Sentada em um banco, Rosemari Lima, 45 anos, mal conseguia falar, cinco horas após a morte do filho Ronaldo de Lima, 18 anos. Tremia o queixo e as pernas, e não escondia a dor da perda. Antes de responder qualquer pergunta, tomava ar e suspirava profundamente, reação que mais parecia um desabafo. “Ele morreu feito um bicho”, protestou.
Rose, como é conhecida, não estava por perto quando o filho foi morto. Dormia em sua residência, na Vila Cruzeiro, e foi acordada repentinamente por volta das 6h30. É que Ronaldo morava há cerca de três anos na casa de uma irmã de criação, a viúva Lúcia Paris, 54 anos, no Morro Santa Tereza. O padrasto do jovem e ele não se entendiam e Ronaldo acabou vindo morar na casa de Lúcia, que também era chamada de mãe.
Ela também foi acordada no susto por vizinhos, com a notícia ruim praticamente batendo à porta de casa. “Gritaram: “Lúcia, Lúcia, o Ronaldo foi baleado.” O corpo do jovem estava estirado na frente de um bar, a 30 metros da residência, no Acesso 7. Familiares relatam que o jovem ainda estava vivo quando foram vê-lo.
A BM tentou resolver a situação, mas os moradores passaram a jogar pedras e objetos contra os policiais. Sem controle, o Batalhão de Operações Especiais (BOE) foi acionado e passou a disparar balas de borracha contra a população que, em seguida, colocou fogo em entulhos. As duas negam que o jovem estava armado e que teria efetuado disparos contra os policias militares. “Mataram por matar, porque nem para revistar o guri revistaram. Não nos mostraram arma nenhuma, que falaram que estava com ele”, disse Lúcia.
Mas porque correr dos policiais? “Talvez o Ronaldo tenha se assustado”, diz Lúcia. Mãe de nove filhos, Rose diz que não esperava encontrar o filho morto. “Uma mãe não quer sepultar o filho, eu não espero isso aí.” Ela conta que veio de táxi para o Morro e quando chegou na entrada da Vila Buraco Quente passou mal. “Eu não senti minhas pernas e desmaiei. Meus vizinhos me agarraram, me colocaram para sentar.” A mulher conseguiu descer a ladeira principal, até a casa de Lúcia, mas foi contida por conhecidos no caminho. “Ninguém me deixavar ver ele. Tentaram me acalmar primeiro. Um mãe não tem que se acalmar. Isso vai ficar marcado pelo resto da vida. É uma injustiça o que fizeram com ele.”
Lúcia e Rosemari negam que o jovem tinha envolvimento com o tráfico de drogas. Segundo as duas, ele voltava de uma confraternização na vila. Além disso, Lúcia observa que ele tinha um antecedente criminal por um assalto a um posto de saúde. Segundo a mãe, ele queria mudar de vida e se tornar militar, já que tinha completado 18 anos em março.
"Meu filho morreu feito um bicho", lamenta mãe de jovem morto no Morro Santa Tereza
Rosemari Lima não acredita que filho tenha reagido a abordagem da Brigada Militar