Não são raras as alegações de insegurança no bairro Bom Fim, em Porto Alegre. De acordo com os moradores, houve aumento dos casos de furtos e arrombamentos. A Brigada Militar garante que reforçou ações para coibir a criminalidade ali.
O assunto inflamou debates no WhatsApp. Em um grupo, alguns donos de estabelecimentos consideraram investir em serviços de segurança privada. Outros, com receio de que a medida possa aumentar a violência na região, defenderam o reforço de cobranças em relação ao poder público.
Em nota, a Associação dos Amigos do Bairro Bom Fim expressou temor com a reação dos empresários e sugeriu uma análise aprofundada das causas do problema. A entidade sustenta que, além de ações junto às autoridades, a melhoria da segurança requer o envolvimento da comunidade em fóruns governamentais e sociais.
O vice-presidente da associação, Milton Gerson, pontua que a maior parte das ocorrências são registradas na madrugada. Na avaliação dele, a escalada da criminalidade no bairro começou na pandemia e ganhou folego após a enchente.
"A repercussão mais negativa vem de arrombamentos a comércios e dos furtos de fios e cabos. Isso causa problemas graves a todos, moradores e empresários. O furto de fios gera falta de luz e de internet, ou seja, um prejuízo enorme. Além disso, no caso dos empresários, o custo de arrumar uma porta arrombada ou o vidro quebrado de uma loja por vezes é maior do que o preço de um produto vendido”, ressalta o vice-presidente da entidade, que também é jornalista.
Outra preocupação do associado é com os catadores de materiais recicláveis. A justificativa é que eles também costumam percorrer as ruas na madrugada e, por isso, podem virar alvo de hostilidades.
“Não podemos generalizar o que está ocorrendo a todas as pessoas que circulam na madrugada. A revolta com a situação provocou um movimento forte, até pesado, e isso pode levar a um processo de violência ainda maior. É preciso separar o joio do trigo. A segurança pública não deve ser tratada como se fosse um campo de guerra.
“Temos recebido apoio da BM e da Guarda Municipal, na medida do possível, mas sabemos que isso é enxugar gelo. O problema é muito maior. Não há vagas em penitenciárias, o sistema prisional está falido e a legislação considera furtos e arrombamentos como delitos de menor potencial ofensivo. Fora isso, existe uma gama de outras causas que precedem a situação que vivemos. A consequência é o sofrimento da comunidade, e nosso papel enquanto representantes é pressionar por melhores condições de policiamento. O cobertor é curto, então, a longo e médio prazos, cabe aos governantes estabelecer que coisas assim não aconteçam mais”, pondera Milton Gerson.
Patrulhas no Bom Fim
O comandante do 9º BPM, tenente-coronel Hermes Völker, ressalta que deslocou duas patrulhas ao Bom Fim. As guarnições atuam fora dos chamados do 190, com foco na abordagem de suspeitos.
"Enviamos policiais especialmente para fazer abordagens ao longo das madrugadas. Por conta disso, temos registrado prisões quase que diariamente, o que inclui a captura de foragidos. Já recebemos o feedback de moradores sobre o efeito positivo das patrulhas", destaca o comandante do 9º BPM.
Ainda de acordo com o tenente-coronel Völker, uma das causas da criminalidade é o expressivo número de usuários de drogas que habitam as ruas do bairro. Em outras palavras, os delitos são cometidos para sustentar o vício.
"No Bom Fim, há muitas pessoas em situação de rua, sendo a maioria dependentes de crack. Os fios e metais furtados, por exemplo, são trocados por narcóticos. Reforçamos as vistorias em ferros-velhos que compram materiais do tipo e, por consequência, incentivam crimes”, enfatiza o oficial.
Leia a nota da Associação dos Amigos do Bairro Bom Fim
A Associação dos Amigos do Bairro Bom Fim expressa sua total discordância com movimentos internos de empresários que buscam se organizar para executar ações de reação direta a situações de insegurança que vem ocorrendo no bairro e região, especialmente nas noites e madrugadas.
Nossa posição segue sendo a de cobrar das autoridades dos três poderes legalmente constituídos, para que elas façam a sua obrigação constitucional de proteger à população da violência física e patrimonial, prevenindo delitos e prendendo aquele que, por ventura, venham a cometê-los.
A política do olho por olho; dente por dente não faz parte da nossa atuação enquanto entidade comunitária. Agimos e agiremos, sempre, dentro da lei, sob pena de nos tornarmos iguais aos que a transgridam.
Devemos, ainda, nos ater as razões pelas quais esse descontrole está ocorrendo. São vários fatores, que vão da falta de investimentos sociais (em educação, saúde, moradia digna, geração de emprego e renda, entre outros), tendo como resultado essa horda de excluídos da sociedade; da chaga das drogas, muleta para quem a usa e lucro para quem a vende; do sistema carcerário falido, que leva o judiciário a “priorizar” quem será preso; à falta de apoio aos órgãos de segurança, hoje com efetivos bem abaixo do que o necessário para atender as demandas crescentes em nossas comunidades.
Portanto, analisar esse quadro com a profundidade que ele merece, sem radicalismos e superficialidades, e participar de fóruns governamentais e sociais, nos quais se discutem esse tema, também faz parte da luta por melhores condições de segurança e de vida para todas e todos. Esse é papel da nossa entidade e, assim, seguiremos.
Milton Gerson
Vice-presidente