Polícia

Mulheres no cárcere devastam famílias

Elas representam menos de 10% da massa carcerária gaúcha

No RS, há 30 mil mulheres presas
No RS, há 30 mil mulheres presas Foto : Vinícius Roratto
Elas representam menos de 10% de toda a massa carcerária de 30 mil presos no Rio Grande do Sul. Porém, quando uma mulher cai no crime, os reflexos são devastadores, tanto para as vidas delas como para as dos parentes. Em boa parte dos casos, a família fica totalmente desestruturada. Resultado disso é que 22% das detentas têm filhos que estão cumprindo algum tipo de pena ou já passaram pelo sistema penitenciário, segundo dados de uma pesquisa realizada pela Superintendência de Serviços Penitenciários (Susepe) em 2012.

“É um efeito cascata, transgeracional. Filhos em lares com condutas criminosas têm chances maiores de cometer algum delito. Ficam expostos ao risco de seguir um caminho semelhante ao dos pais”, assegura o psiquiatra forense e psicanalista vinculado à Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul (APRS) Paulo Oscar Teitelbaum. Ele salienta que o afastamento do homem também abala a vida dos filhos, mas, nos casos em que a mulher se ausenta, o núcleo familiar praticamente termina. No entanto, destaca que cada sujeito fará uma equação pessoal com diversos fatores da vida. Por isso, não quer dizer que alguém com pais criminosos também vá violar a lei.

O caminho da mulher no crime começa quando ela, na maioria dos casos, é influenciada por homens. “A grande esmagadora maioria das mulheres está cumprindo pena por tráfico. Muitas são submissas e dependentes dos homens, incluindo companheiro, filho e pai”, comenta o psiquiatra. De acordo com Teitelbaum, nem todas se envolvem em delitos, mas algumas que entram na atividade criminosa acabam servindo para levar drogas às cadeias. “Outras aderem ao tráfico externo para ajudar na subsistência da família. Fatores individuais e pressão ambiental e social vão se combinar para que essas mulheres sigam o caminho”, diz.

Uma vez presa, a mulher sofre discriminação e é abandonada, em mais de 80% dos casos, pelos maridos. Uma pesquisa do Departamento Penitenciário Nacional mostra que apenas 8,7% das detentas recebiam visitas de companheiros e parentes. “A mulher é muito julgada. Existe todo um questionamento moral”, afirma a coordenadora penitenciária da mulher, Maria José Diniz.

Das apenadas gaúchas, 22% têm companheiros que estão presos ou já passaram pelo sistema carcerário. As que têm irmãos apenados somam 30%.  A interferência do contexto familiar nos atos ilegais é o tema de uma série de reportagens, que começa a ser publicada. A vida dos bebês nascidos atrás das grades, dependência e abandono serão abordados pelo Correio do Povo nos próximos dias. Para preservar a privacidade das fontes, foram usados nomes fictícios para as presidiárias.

Mães e filhas cumprem pena juntas

A acusação de tráfico privou mãe e filha da liberdade. Há mais de um ano, os papéis das duas se inverteram. Pelos corredores da Penitenciária Feminina Madre Pelletier, em Porto Alegre, Roberta, 30 anos, passou a cuidar de Marcelina, 65, que sofre de hipertensão e diabetes. “Ela é doente. Já fiz de tudo para ela poder sair”, conta. Os cuidados com a idosa, contudo, não são a única preocupação. Desde que foi presa, os filhos, um menino de 5 anos e uma jovem de 15, estão sob a responsabilidade de parentes, em Balneário Pinhal, onde a família vivia.

Roberta teme que a filha siga o caminho errado. “Ela não aceita o que aconteceu. Não quer ir ao colégio”, comenta. Ambas alegam inocência e dizem que foi por causa do marido de Marcelina que pararam atrás das grades. “Quando eu comecei o relacionamento, sabia que ele era viciado em crack. A Polícia achou droga e dinheiro na minha casa, mas eram dele”, afirma a mãe. O homem também foi preso, mas se matou três meses depois, na Penitenciária Modulada Estadual de Osório. “Fiquei chateada. Ele era bom, mas me levou junto, levou todo mundo”, lamenta ela. Os outros sete filhos culpam-na por toda a situação e não aceitam os fatos. “Estão revoltados. Dizem que sou a culpada por conviver com ele”, diz.

Marinez, 52, e Marina, 32, lembram bem o dia 20 de agosto do ano passado, quando foram pegas em uma operação em Alvorada, com 22 pessoas suspeitas de integrarem uma quadrilha comandada por um presidiário. As duas ainda esperam o julgamento por associação ao tráfico e lavagem de dinheiro. A Polícia Civil apreendeu mais de R$ 1 milhão em bens da suposta quadrilha. O patrimônio adquirido através da venda de entorpecentes era composto por mais de 40 veículos, cinco casas, dinheiro de 30 contas bancárias e joias.

“Não tínhamos nada a ver com aquilo. Achei que explicaria tudo na delegacia e iria embora”, relata Marina, que se formaria em Direito no final de 2012. O marido e o cunhado também foram para a cadeira e ela lamenta o envolvimento no caso, assim como o da mãe. “Fico magoada com essa situação. Onde vou conseguir fazer um concurso? Acabou a minha vida. Não vou terminar a faculdade”, declara.

Apesar de estarem no mesmo presídio, a mãe vive na Galeria B3 e a filha na C. Uma delas atua na cozinha para ocupar o tempo e ajudar a diminuir a provável pena e a outra, em uma empresa dentro da Madre Pelletier.

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