Polícia

Pesquisa revela 441 mil casos de violência contra mulheres em Porto Alegre

Dados foram divulgados nesta quinta-feira

A primeira pesquisa de Vitimização de Porto Alegre revela dados que poderão auxiliar as polícias e o próprio governo a planejar as ações da área da segurança. Inédita no município, a pesquisa, divulgada nesta quinta-feira, revelou cerca de 441 mil casos de violência contra mulheres na cidade.

Do total, 28 mil foram assediadas sexualmente, 44 mil mulheres já foram estupradas, 238 mil receberam comentários desrespeitosos na rua, 84 mil foram tocadas sexualmente sem sua autorização e 47 mil foram agarradas ou beijadas a força. Os dados são referentes aos últimos 12 meses.

Os dados mostram ainda que 170 mil porto-alegrenses foram vítimas de roubo e 193 mil foram vítimas de alguma fraude - seja no cartão de crédito, celular ou dinheiro falso.

A pesquisa

De acordo com o presidente do Instituto Cidade Segura, Marcos Rolim, a coleta dos dados foi realizada entre os dias 17 e 28 de outubro do ano passado, pelo Instituto de Opinião Pública (IPO) a partir de um questionário com 152 questões. A amostra foi realizada com mil entrevistas domiciliares, nos setores censitários da cidade, em suas oito regiões. “Ouvimos residentes maiores de 16 anos, de sexos diferentes, faixas etárias e níveis de renda, reunindo variáveis como escolarização, composição étnica e pertencimento a religiões”, explica. A margem de erro é de 3% e seu grau de confiança é de 95%.

De forma inédita no Brasil, a pesquisa construiu, a partir da avaliação dos residentes, o Indicador de Confiança Policial (IC-POL) para a Polícia Civil (PC) e Brigada Militar (BM). Não há registro de uma pesquisa tão ampla como a gaúcha. Foram cerca de duas horas para cada entrevistado, “Foi uma pesquisa difícil, aleatória e com muitas diferenças na forma como fomos recebidos, enquanto alguns nos ofereciam cafés outros não quiseram responder.”

A esperança é de que os dados não fiquem apenas no papel e resultados efetivos sejam tomados, tanto do governo de Porto Alegre, quanto do Estado. “Nossa pesquisa mostra que 49,2% confia na BM e 53,7% na Civil. É impressionante que quanto mais jovem a população, mais ela desconfia da polícia. As melhores avaliações têm mais de 59 anos”, destaca. Rolim aponta que quanto mais pobre é o entrevistado, pior a maneira como ela vê a segurança pública. “Isso tem a ver como a polícia atua. Normalmente ela não chega chutando as portas de pessoas mais privilegiadas. São condutas distintas que destroem a confiança das instituições.”

Estar exposto ao risco e observando pessoas da família ou até conhecidos sofrendo com a perda de bens em roubos e furtos causam diversos sentimentos nas pessoas, como aponta a pesquisa. Independente da classe social ou do local de Porto Alegre que reside, as doenças que a insegurança traz avançam de forma considerável. A pesquisa aponta que a ansiedade diante dos riscos de alguma situação atinge 404 mil portoalegrenses. O pânico por risco envolvendo familiar é de 395 mil e 83 mil pessoas têm pesadelos com cenas de violência que são vivenciadas ao longo dos dias, tanto na televisão, quanto nas páginas de jornais, internet ou, até mesmo, na localidade em que vive.

A pesquisa foi elaborada pelo Instituto Cidade Segura – Inovação em Segurança, com apoio do Sindicato dos Policiais Federais (Sinpef-RS), o Sindicato dos Escrivães, Inspetores e Investigadores de Polícia (Ugeirm) e o Sindicato dos Policiais Rodoviários Federais (SinPref-RS).

O que chama atenção

Rolim diz que no mundo inteiro são realizadas pesquisas na área da segurança pública. O presidente considera que elas são imprescindíveis para ter o cenário específico sobre tendência criminal. “Atualmente os diagnósticos são feitos com base nos boletins de ocorrência policial, mas grande parte das vítimas não fazem o registro. Se isso não ocorre, como saber se o crime sobe ou não? Os registros aumentam e isso pode significar que a segurança pública funcionou e aumentou”, destaca.

Segundo ele, as taxas de subnotificações – nome usado para o conjunto de crimes que ocorrem e que o Estado não sabe porque não notificado – é alta. “A pesquisa consegue nos dar ressa dimensão”, afirma. O presidente diz ainda que as 90% das pessoas já foram vítimas de algum tipo de fraude, mas quanto menos elas confiam nas polícias, menos elas registram. “Elas têm a visão de que não vão recuperar o bem e por isso não fazem o boletim de ocorrência.”

Entre os dados pesquisados, há surpresas. “Ficamos impactados com a vitimização de mulheres. O tema desrespeito cotidiano, abuso na rua, no ônibus, não imaginava que fosse tão alto. A quantidade de fraudes e a dinâmica delas também é nova para mim”, fala. Rolim detalha que pessoas que recebem uma nota falsa de dinheiro, para não ficarem no prejuízo, sabendo da falsificação repassam para terceiros. “Em vez de registrar um boletim de ocorrência, que pode ser feito até pela internet, ela repassa. É preciso pensar numa estratégia, nem que seja uma campanha para evitar novas vitimizações.”

O número de roubos e furtos de veículos não entrou no questionamento feito às pessoas. “Nem perguntamos porque elas precisam do boletim para a seguradora. Agora, quando são outros crimes, as taxas são muito elevadas”, destaca. Para ele, uma das soluções para aumentar tanto a confiança quanto o número de registros feitos pela comunidade é usar a estratégia da aproximação, como o chamado policiamento comunitário. “Quando há um conhecimento daquele que faz o patrulhamento da sua rua, o contato é diferente, há troca de informações. A proximidade é fundamental para a confiança na instituição, porque o cidadão não vai até uma delegacia para falar com quem não conhece. As melhores polícias do mundo tem essa estratégia.”

Apoio de sindicatos


“Segue sendo muito incomum no Brasil esse tipo de pesquisa. No centro do País houve várias, aqui algumas também. No Estado teve em Alvorada, 2004; Canoas, 2009; Pelotas, 2017, e agora, Porto Alegre. Somos ONG que trabalhamos com pesquisa e tivemos apoio de sindicato em avançar o estudo com base científica.” Rolim ressalta o apoio que recebeu das entidades que representam a Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e Polícia Civil.

Rolim garante que os sindicatos sabem dos problemas e estão empenhados para que haja reforma. “Eles lutam para mudar e melhorar, tanto que nos estimularam e patrocinaram essa pesquisa. A luta para mudar a polícia tem a ver com os próprios policiais e, claro, depende da legislação brasileira, que também precisa de uma reforma e de uma mudança constitucional”, acrescenta.

A violência em números

Vítimas de roubo: 170 mil

Vítimas de fraude

Cartão de crédito: 32 mil pessoas

Celular: 180 mil pessoas

Dinheiro falso: 137 mil pessoas

Internet: 24 mil pessoas

Ameaçadas de morte: 77 mil pessoas

Agredidas fisicamente: 47 mil pessoas

Vítimas de discriminação: 140 mil pessoas

Perturbação do sossego: 340 mil

Familiar assassinado ao longo da vida: 279 mil pessoas

Testemunharam consumo de drogas ilegais: 1 milhão de pessoas

Testemunharam adolescentes consumindo bebidas alcoólicas: 870 mil pessoas

Assediadas sexualmente: 28 mil mulheres

Violência sexual: 44 mil mulheres já foram estupradas ao longo de suas vidas

Nos últimos 12 meses 238 mil mulheres receberam comentários desrespeitosos na rua, 84 mil foram tocadas sexualmente sem sua autorização e 47 mil foram agarradas ou beijadas a força. 

*Pesquisa com base nos últimos 12 meses
*Fonte: Instituto Cidade Segura – Inovação em Segurança