Polícia

PGM e ex-subprocurador de Guaíba estão entre os alvos de operação que investiga fraude em licitações

Polícia Civil identificou movimentações financeiras entre os dois, sendo algumas superiores aos vencimentos

Investigação da Polícia Civil na Prefeiura de Guaíba
Investigação da Polícia Civil na Prefeiura de Guaíba Foto : Camila Cunha

O atual procurador da Procuradoria-Geral do Município (PGM) de Guaíba e um ex-subprocurador estão entre os alvos de mandados de busca e apreensão na manhã desta quinta-feira, durante uma operação da Polícia Civil que investiga suspeitas de fraude em licitações e falsificação de documentos. A apuração identificou movimentações financeiras entre os dois investigados, algumas com valores superiores aos vencimentos deles.

A Operação Pseudographos cumpriu sete mandados de busca em Guaíba, incluindo dependências da administração municipal, a sede da empresa investigada, um escritório de assessoria contábil e residências. Uma pessoa foi presa em flagrante por porte ilegal de arma de fogo. Foram apreendidas armas, munições e documentos.

Segundo o delegado da 2ª Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Administração Pública Municipal (Dercap), Augusto Zenon, a investigação busca esclarecer se houve combinação entre particulares e agentes públicos para beneficiar uma empresa de terceirização de mão de obra em contratos com a prefeitura. “Por movimentações financeiras, apura-se que os investigados tinham trâmites um pouco anômalos e passagem de dinheiro entre eles”, afirmou.

De acordo com a investigação, os contratos públicos relacionados à empresa ultrapassam R$ 3 milhões. Além disso, uma quantia superior a R$ 300 mil que estava retida por irregularidades na prestação de serviços, acabou liberada em uma tramitação considerada atípica pelos investigadores.

A investigação começou após a Contadoria e Auditoria-Geral do Estado (Cage) informar indícios de falsificação em certificados de capacidade financeira apresentados pela empresa para participar de licitações da prefeitura. Os documentos seriam necessários para comprovar que a companhia tinha condições financeiras para executar os contratos.

Segundo Zenon, a empresa utilizou um desses certificados para vencer uma licitação e estava habilitada a participar de outro processo. A análise da Cage e uma perícia do Instituto-Geral de Perícias (IGP) apontaram que os documentos não haviam sido emitidos pelo sistema oficial e apresentavam sinais de falsificação.

A delegada titular da Delegacia de Polícia de Guaíba, Karoline Calegari, explicou que a investigação local começou após o próprio proprietário da empresa beneficiada procurar a polícia, por meio de advogado, para comunicar que uma certidão apresentada em um processo licitatório seria falsa. Ele atribuiu a apresentação do documento ao escritório de contabilidade contratado pela empresa.

As profissionais do escritório confirmaram que haviam anexado o certificado, mas sustentaram que o documento era legítimo. Essa versão, conforme Karoline, foi confrontada pelos exames técnicos. A delegada afirmou que o proprietário também permaneceu entre os suspeitos desde o início, uma vez que a empresa dele teria sido beneficiada pelo documento. “Ele não deixou de ser suspeito, pois se beneficiou do contrato. As contadoras não teriam motivo para prejudicá-lo”, disse a delegada.

Investigação apura atuação de servidores

Com o avanço das diligências, a Polícia Civil passou a examinar decisões administrativas que teriam favorecido a empresa, inclusive em procedimentos de pagamento, aplicação de sanções e participação em novas licitações.

Segundo Zenon, os dois servidores municipais são investigados por sua atuação nesses procedimentos. A apuração busca esclarecer por que medidas administrativas relacionadas à suspeita de irregularidade documental teriam sido condicionadas à conclusão de um inquérito policial e como ocorreu a liberação dos R$ 310 mil que estavam retidos.

A investigação também analisa possíveis movimentações financeiras entre os envolvidos para verificar se houve pagamento de vantagens indevidas.

Os policiais apreenderam documentos e equipamentos que serão examinados. O material inclui computadores e celulares, cuja análise poderá ajudar a esclarecer as comunicações entre os investigados e a participação de cada um. “A partir de agora, esse material vai ser todo analisado. Vai ser feita a decodificação dos celulares e a apuração de vínculos entre as pessoas”, afirmou Zenon.

O Correio do Povo busca contato com a defesa dos investigados. O espaço permanece aberto para contraponto.

A operação foi conduzida pela Dercap, com apoio da Delegacia de Polícia de Guaíba. A investigação apura suspeitas de falsificação de documento público, uso de documento falso, fraude em licitação e associação criminosa. A promotoria do Ministério Público (BM) de Guaíba e o Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS) também ajudaram na elucidação das irregularidades que resultaram na operação.

De acordo com a Polícia Civil, o nome “Pseudographos”, de origem grega (pseudés, “falso”, e gráphō, “escrever”), foi atribuído à operação por remeter à “escrita falsa”, isto é, aos documentos forjados com aparência de autenticidade oficial para atestar uma capacidade financeira que não havia sido regularmente certificada, e que teriam viabilizado a habilitação em certames públicos.

O que diz a prefeitura

Procurada, a Prefeitura de Guaíba informou que ainda não possui um posicionamento sobre a operação, pois ela permanecia em andamento. Uma nota oficial deverá ser divulgada ao longo do dia.

Através das redes sociais, a prefeita Claudinha Jardim confirmou que a ação e ressaltou que um posicionamento será divulgado em breve. Confira:

“Na manhã desta quinta-feira (22), a Polícia Civil esteve na Secretaria de Licitações e Contratos (SELIC), onde realizou o recolhimento de arquivos digitais.

Reafirmo meu compromisso com a transparência, a legalidade e a plena colaboração com as autoridades competentes.

Assim que tivermos mais informações, divulgaremos uma nova nota oficial.”