Um suposto esquema de propina paga pelo traficante Celso Pinheiro Pimenta, o Playboy, a policiais militares para que fizessem "vista grossa" a sua presença no morro da Pedreira, zona norte do Rio, é alvo de investigação da PM do Rio. A
corregedoria da corporação abriu um inquérito policial militar (IPM) para apurar o envolvimento de agentes com o chefe do tráfico na comunidade e um dos principais chefes da facção criminosa Amigo dos Amigos (ADA). A PM não informou quantos são os policiais investigados.
Paralelamente, as eventuais propinas de Playboy a PMs são investigadas pelo Ministério Público do Rio, através do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco). Os dois procedimentos estão em sigilo.
Playboy, de 33 anos, foi morto no último sábado, ao ser encontrado por policiais na casa da namorada, no Morro da Pedreira. A ação integrou agentes da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil, da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) da Polícia Federal e do serviço de inteligência da Polícia Militar (PM).
O esquema foi relatado pelo traficante em entrevista à revista "Veja" em fevereiro deste ano. Playboy afirmou que conseguiu evitar ser preso no fim de 2014 pagando R$ 648 mil aos policiais envolvidos. Teria entregue ainda dois fuzis AK-47 e correntes de ouro, que pesavam 4,5 kg, aos agentes. Em outro momento, teria desembolsado R$ 400 mil para livrar outro traficante da prisão. Segundo a publicação, as propinas mensais para que Playboy permanecesse na favela sem ser incomodado pelos policiais seriam de R$ 100 mil.
A morte do chefe do ADA também será investigada pela Polícia Civil. Registrada como homicídio decorrente de ação policial, ela será apurada pela própria Core, que realizou a ação. As armas utilizadas na ação já foram apreendidas para perícia, e os policiais envolvidos já foram ouvidos - a Polícia Civil não revelou quantos.
Nesta segunda-feira, o medo de represálias do tráfico deixou sem aulas seis mil estudantes em escolas da região, que não funcionaram. Ao todo 5.759 alunos da rede municipal foram afetados, segundo a Secretaria Municipal de Educação. "De acordo com a 6ª Coordenadoria Regional de Educação, nove escolas, três creches e cinco Espaços de Desenvolvimento Infantil (EDIs) estão sem atendimento na região de Costa Barros", declarou o órgão, em nota. A Secretaria informou ainda que o conteúdo perdido será reposto. Na rede estadual, dois colégios suspenderam as atividades, o que deixou 738 estudantes sem aulas.
Também nesta segunda, a Unidade de Pronto Atendimento de Costa Barros, próxima à Pedreira, reabriu, depois de permanecer fechada ao longo do domingo. No primeiro dia útil depois da morte do traficante, o clima ainda era de tensão, com muitos estabelecimentos comerciais fechados. A área segue ocupada por 400 policiais. O comando de Operações Especiais atua no interior das comunidades do Complexo da Pedreira e os PMs do 41º Batalhão (Irajá), em seu entorno.
O governador do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), afirmou que a Pedreira pode receber uma Unidade de Polícia Pacificadora, conforme já havia sido anunciado pelo secretário de Segurança José Mariano Beltrame. Pezão disse que a pacificação é um "destino natural" da região. Afirmou ainda que o cerco policial será mantido na comunidade por tempo indeterminado, com o objetivo de retirar o armamentos mantidos por traficantes locais.
Já o secretário Beltrame acredita que logo Playboy será substituído. "O Playboy é mais um bandido morto. Não vamos valorizar esses bandidos. Esse foi e daqui a pouco vai ter outro no lugar dele", ressaltou nesta segunda.
Para o pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e professor da FGV Rafael Alcadipani, a criação da figura de um "inimigo público" esconde a falta de enfrentamento dos problemas que originam a violência nas comunidades. "É muito a lógica do 'bandido bom é bandido morto'. Nunca se matou tanto bandido no Brasil, e nunca se teve tantos problemas com a criminalidade".
Sucessores
As forças de segurança já apontam um possível sucessor para Playboy. Os mais cotados são Carlos José da Silva Fernandes, o Arafat, de 37 anos, foragido desde 2012, e Gilberto Mendes Dias, o Betinho, de 46, foragido desde 2010. Ambos são classificados como os 'segundos' na hierarquia do tráfico na Pedreira.
Áudios atribuídos a Arafat começaram a circular nas redes sociais desde a morte de seu comparsa. Em um deles, supostamente, o traficante manda um recado aos PMs. "Só o 41º Batalhão que está rodando aí embaixo, se eles tentar, não vamos deixar. Vamos botar a guerra para começar forte. A partir de agora acabou a paz. Vieram aqui na comunidade, esculacharam o chefe. Agora acabou o (sic) caô, a guerra vai começar de verdade", diz o autor da mensagem.
PM investiga se traficante Playboy pagou propina no Rio
Esquema foi relatado pelo criminoso em entrevista no inicio do ano