Polícia

Polêmicas e indefinições marcam os primeiros dias do governo Temer

Analistas acreditam que descontentamento generalizado é um dos desafios do presidente interino

Falta de mulheres no primeiro escalão foi um dos motivos de críticas a Temer
Falta de mulheres no primeiro escalão foi um dos motivos de críticas a Temer Foto : Marcelo Camargo / Abr/ CP
Anúncio da nova meta fiscal e sinalizações na área econômica ainda sem medidas concretas, que apontam para a retomada de diretrizes adotadas no governo do ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso (1995-2003). Sucessão de gafes nas áreas sociais e desgaste no campo político, gerado em parte pela escolha de nomes questionáveis para o primeiro escalão do governo. Este é um resumo da avaliação de especialistas sobre os dez primeiros dias do governo do presidente interino Michel Temer, completados neste domingo.

“Há uma multipolarização, em uma sociedade altamente complexa. O governo Temer parece não ter se dado conta de que o descontentamento generalizado não vai ser amainado com uma acomodação de forças no Congresso”, alerta a professora do Programa de Pós-graduação em Ciência Política da Ufrgs, Silvana Krause. Especialista no estudo de partidos e comportamento eleitoral, Krause destaca que a paralisia que tomava conta do governo Dilma era em parte reflexo do impasse em que se encontra a sociedade brasileira e, por isso, se apresenta também na gestão interina de Temer. “Além disso, a agenda pública, as mídias, as discussões, acabam ocorrendo em velocidade muito superior à da capacidade de articulação do governo. O PMDB é um partido federado muito forte, o que lhe dá força no Parlamento, mas não garante o nível de conexão do qual precisamos neste momento.”

Para o coordenador do Centro Brasileiro de Pesquisas em Democracia da PUCRS, André Salata, a escolha dos ministros, a ausência de mulheres e negros em cargos de primeiro escalão, a extinção do Ministério da Cultura (MinC), a mudança de status da Controladoria-Geral da União (CGU) e as declarações de ministros sobre o SUS e o regime geral da Previdência evidenciam uma “guinada conservadora”. “É uma situação peculiar. A presidente eleita não foi definitivamente afastada. Mesmo assim, o presidente interino trocou todo o ministério e indica que adotará um programa de governo oposto”, resume Salata.

Segundo os pesquisadores, é uma ilusão acreditar que Temer tem o apoio das parcelas majoritárias das classes média e média alta. “Daqui para a frente, será importante observar como se comportarão as camadas populares, que integram em muito menor medida as manifestações públicas existentes até agora. Quem as atrair terá um grande trunfo político”, projeta.