A médica intensivista, investigada há ano pela Polícia Civil, foi indiciada por homicídio qualificado, porque as pessoas não tinham chance de se defender. Ela atua no hospital desde 1988 e chefia a UTI há sete anos. A direção do hospital não confirmou a hipótese de exumação de corpos, levantada por uma fonte ligada ao caso - cuja investigação é feita em sigilo -, e apenas confirmou a troca de 34 enfermeiros e 13 médicos do setor de UTI. Segundo o diretor-clínico Gilberto Pascolat, o objetivo da troca - que atendia pedido da Secretaria Municipal de Saúde - é o de evitar pânico entre os familiares de pacientes. "É uma forma de tranquilizar mais as famílias", disse.
A denúncia que culminou com a prisão de Virgínia teve início no ano passado, conforme a queixa de uma pessoa que conhecia o trâmite na UTI. "A pessoa entrou em contato com a Ouvidoria, que nos repassou a denúncia e iniciamos a investigação", disse a delegada Paula Brisola. Nos últimos dias, vieram à tona depoimentos com acusações gravíssimas contra a médica.
Na quinta-feira, a família de uma ex-paciente que passou pela UTI do hospital em dezembro contou que ela escreveu um bilhete para a filha pedindo que a retirassem dali. "Eu preciso sair daqui, pois tentaram hoje me matar desligando os aparelhos", diz trecho do bilhete. A paciente estava entubada quando teria escutado alguém mandar desligar o aparelho. "Eram 8h da manhã, a médica (Virgínia Soares de Souza) disse que queria ver se eu aguentava até as 16h. Mas, assim que ela deu as costas, a enfermeira colocou o respirador e disse que não deixaria que fizessem isso comigo."
Antes, uma ex-funcionária da UTI disse que a médica tratava os pacientes do SUS com desdém, dando a entender que ela desligava os aparelhos no qual eles estavam ligados. "Quase todo dia havia uma parada cardíaca e ela gritava "Spp" (sigla utilizada em UTIs que significa "se parar, parou!"), então, as enfermeiras saíam fora e deixavam o paciente. Isso quando era SUS; se era particular ou convênio aí tentavam salvar", disse.
A RPC TV, afiliada da Rede Globo, divulgou trecho do depoimento da médica à polícia no qual ela diz que havia sido "mal interpretada" por falas como "Quero desentulhar a UTI, que está me dando coceira". Outro ex-enfermeiro disse que ela interrompia ou a ventilação mecânica ou as medicações que mantinham pacientes vivos. Um terceiro, em depoimento à RPC TV, disse que ela fumava na UTI e ameaçava funcionários.
O Conselho Federal de Medicina (CFM) se manifestou por meio de nota e não descartou a cassação do exercício profissional da médica. "Se for confirmado o delito, o CRM-PR proporá a abertura de processo contra a médica denunciada, que ficará passível de receber penas que vão até a cassação do exercício profissional", diz a nota.
O advogado de defesa de Virgínia, Elias Mattar Assad, disse que entregará nesta sexta-feira um documento ao Conselho Federal de Medicina pedindo para que sejam revistos os procedimentos em UTIs de todo o País."Não é possível que os intensivistas fiquem cuidando e com a responsabilidade de pacientes que não são deles. Em uma UTI seria necessário mais acompanhamento do médico responsável e nenhuma atitude poderia ser tomada sem que ele desse a autorização. A UTI é a fronteira entre a vida e a morte", disse.
Ríspida, mas idônea
A prisão da médica Virgínia Soares dividiu opiniões entre os pacientes e profissionais que trabalhavam com ela, desde que assumiu a UTI do Evangélico, há 23 anos. Conhecida como uma mulher de forte personalidade, não faltaram problemas de relacionamentos em sua trajetória ali. Segundo o diretor Gilberto Pascolat, ela chegou a ser suspensa por um mês, por problema interno de relacionamento. "Nunca tivemos um fato sequer que desabonasse o trabalho dela, mas ela exigia muito de toda a equipe e às vezes era um pouco ríspida", revelou.
Mas Pascolat diz estranhar a onda de denúncias a respeito da médica. "Tenho acompanhado depoimentos de pessoas que trabalharam aqui, mas, se havia esses maus-tratos, esses problemas, por que isso nunca chegou até nós?", questiona. Outro médico, que preferiu não se identificar, ratificou a opinião de Pascolat. "Posso dizer que ela era boca dura, não deixava nada para depois, exigia bastante de todos, mas sempre dentro da ética profissional. Chegamos a trabalhar juntos no Instituto de Medicina e ela sempre teve essa característica. Mesmo assim, nunca soube de problemas como esses que estão falando", afirmou.
Já um segurança e ex-paciente que também pediu anonimato disse ter boas lembranças da médica e credita a ela a sua recuperação. Ele foi jogado em frente ao hospital em uma noite de 2005 com vários tiros nas costas e ficou cinco meses na UTI sendo tratado diretamente por Virgínia. "Ela foi muito boa comigo e me tratava, mesmo sendo a chefe do setor. Depois disso, conversamos bastante e, anos depois, vim trabalhar no hospital. Sempre a vi como uma pessoa que me devolveu a vida. Ela até me chamou de valente, depois que me recuperei. Ela era muito exigente. E agora, com isso que aconteceu, fico triste, pois ela é como uma pessoa da família", contou.