Polícia

População se esconde atrás das grades por medo da violência

Muros altos, cercas elétricas e até armadilhas são usadas na tentativa de barrar criminalidade

Medo da violência coloca população atrás das grades
Medo da violência coloca população atrás das grades Foto : Fabiano do Amaral
A violência e o medo estão por toda parte, das periferias aos bairros mais nobres. Diante da ineficiência do poder público, cada um se vira como pode. Muitos vivem e trabalham atrás das grades, sendo prisioneiros em pleno exercício da liberdade. Não faltam muros altos, cercas elétricas e até armadilhas na tentativa de barrar a criminalidade. Raras são as pessoas que saem pelas ruas sem o temor da violência. Não bastasse, nos bairros dominados pelo tráfico de drogas, a lei do silêncio impera.

A sensação de impunidade facilita a ação de criminosos. E, quando finalmente a pessoa é encarcerada, ela fica em condições precárias e sem qualquer chance de ressocialização. Dessa maneira, o sistema prisional forma indivíduos cada vez mais perigosos para a sociedade.

No RS, uma pessoa é assassinada a cada três horas. No primeiro trimestre houve registro de 800 homicídios no Estado. O número supera em 12% o de igual período de 2016: 714. A cada hora 2,37 veículos são roubados, totalizando 5.130 mil ocorrências entre janeiro e março. O volume representa 5,2% sobre os roubos ocorridos nos três primeiros meses do ano passado.

Por outro lado, crimes como o latrocínio apresentaram números inferiores neste ano. Mesmo assim, os índices continuam demonstrando que a situação na segurança pública é grave. Em Porto Alegre, o quadro é similar. Foram 215 ocorrências de homicídio doloso nos três primeiros meses do ano: 2,38 por dia. No mesmo período, no ano passado, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) contabilizou 197 ocorrências do mesmo tipo.

Outro dado que impressiona é a quantidade de prisões realizada em solo gaúcho. A Brigada Militar capturou 108 mil criminosos em 2016. Desses, 30 mil de janeiro e março. Por sua vez, a Polícia Civil realizou 5,4 mil prisões. Cerca de 1,2 mil entre janeiro e março de 2016. No mesmo período de 2017, foram 24,5 mil prisões feitas por policiais militares e 1,3 mil por policiais civis.

O sociólogo, professor da PUCRS e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo observa que crise da segurança pública e as altas taxas de violência levam parte da opinião pública a aderir ao falacioso discurso do “bandido bom, é bandido morto”. “As pessoas estão com medo, inseguras, não confiam nas instituições e pensam, de forma reativa e emocional, que esta é a solução para os problemas.”

Quando o sol se vai

O pôr do sol é um dos principais alertas para aqueles que precisam correr contra o medo de estar nas ruas ao anoitecer. As paradas de ônibus começam a ficar cada vez mais vazias e a angústia de ficar sozinho, na escuridão, atinge até os mais destemidos. Com as janelas do carro fechadas, parar em um sinal vermelho após as 23h é um pesadelo. A ideia de que tudo pode dar errado a qualquer momento acompanha todos aqueles que precisam sair de suas casas, que são completamente trancafiadas com grades de ferro, cercas elétricas e alarmes.

Isso porque, mais do que a própria violência, a sensação de medo é grande entre moradores e comerciantes. Em busca de proteção, as residências ostentam muros cada vez mais altos, os arames farpados dão lugar às cercas elétricas e as câmeras de segurança se proliferam. Os comerciantes, com medo de atender em seus estabelecimentos, trabalham por trás das grades como se prisioneiros fossem. Após um ou dois assaltos, o que mais incomoda não é o prejuízo financeiro, mas o psicológico. O medo de perder a vida a qualquer momento, sem mais nem menos.

No bairro Cidade Baixa, a lavanderia do casal Evelton Amaral, de 49 anos, e Giovana Amaral, 47, também funciona atrás das grades. Das 10h às 21h, as grades permanecem fechadas. “Já derrubaram diversas vezes e nós sempre acabamos reformando. Sem a grade não tem como trabalhar”, afirma Evelton. Giovana lembra que já teve mais de dez telefones celulares roubados nos assaltos que ocorreram no estabelecimento.

A lavanderia funciona no mesmo local há cerca de 24 anos. “Antigamente era mais tranquilo, agora tenho medo até de abrir o portão”, conta Giovana, lembrando que, certa vez, um assaltante com arma de fogo se passou por cliente e roubou seu celular e todo o dinheiro que estava na gaveta do caixa. “O prejuízo nem foi tanto financeiro, mas sim psicológico. O susto foi horrível.”

Na pizzaria familiar Vênus, na rua Duque de Caxias, as grades também estão presentes. Com mais de 18 anos, o estabelecimento atende pedidos de tele-entrega. De acordo com o proprietário Márcio Maciel, de 30 anos, como a pizzaria não oferece opção de comer no local, as grades sempre foram utilizadas pelos seus pais e seguem sendo usadas por ele. “Além da questão da telentrega, usamos as grades por segurança.”

O proprietário diz que elas passam uma sensação de proteção para os funcionários. Os atendimentos àqueles que preferem fazer os pedidos no local, são realizados através de uma pequena abertura no portão. Maciel ressalta que gostaria de trabalhar sem grades, mas admite que, atualmente, não há como deixar de lado o uso das barras de metal.