Polícia

Pousada Garoa: Como a negligência deixou 11 mortos em incêndio

Um ano após a tragédia, o Correio do Povo reconstitui os fatos da madrugada mais letal da história recente da Capital

Manhã seguinte ao incêndio na Pousada Garoa
Manhã seguinte ao incêndio na Pousada Garoa Foto : Camila Cunha / CP Memória

Câmeras de segurança da avenida Farrapos registraram, às 2h03min de 26 de abril de 2024, as últimas imagens de aparente normalidade em frente à Pousada Garoa. Tudo muda em segundos, quando se vê um homem correndo para fora do prédio.

O incêndio que começava deixou 11 mortos, ao menos 15 feridos e um rastro de omissão e negligência de diversas partes. O prédio da Pousada Garoa, em Porto Alegre, abrigava pelo menos 35 pessoas, que viviam em condição de vulnerabilidade social.

A unidade consistia em um complexo que contava com um total de 110 quartos, divididos em três blocos naquela via: 295, 305 e 309. Eles não necessariamente correspondiam aos endereços entendidos pela Prefeitura. O bloco que incendiou naquela noite corresponde ao 295, e foi o último a ser agregado à pousada.

O espaço recebeu uma reforma em 2021, que o conectou com a construção ao lado. Essa passagem ligava, com uma única forma de acesso, ambos os prédios: um hall que ficava à frente da portaria. Todos que entravam ou saíam do prédio precisavam passar por esta, que costumava ser gerida por apenas uma pessoa.

| Foto: Leandro Maciel / CP

Segundo relatos de sobreviventes em entrevistas ou no inquérito da Polícia Civil, ao qual o Correio do Povo teve acesso, o fogo começou no térreo, em um dos quartos 31, 32 ou 33. Um colchão em chamas teria sido retirado por moradores, que tentavam conter o incêndio, sem sucesso.

As chamas se espalharam por uma estrutura composta, em grande parte, por divisórias de madeira, com quartos pequenos e sem janelas. O extintor de incêndio que ficava na recepção, segundo o porteiro Bruno Martins, não funcionou. Ele afirmou nunca ter recebido treinamento de combate a incêndio. A Polícia não conseguiu determinar com exatidão a origem do fogo, devido aos danos.

Ainda naquela manhã de 26 de abril, no térreo, o Instituto Geral de Perícias (IGP) encontrou duas vítimas: Silvério Martin e Anderson Gaúna. O laudo presente no inquérito afirma que ambos morreram devido a aspiração de gases tóxicos.

Acima dos quartos que ficavam no térreo, havia um andar improvisado feito completamente de madeira. A estrutura só podia ser acessada por uma única escada, também de madeira. Nem a escada nem os quartos podem ser vistos nas imagens cedidas por Bruno, já que foram completamente consumidas pelo fogo.

| Foto: Leandro Maciel / CP

O segundo andar e a escada

No segundo andar, foram encontradas cinco vítimas. Os corpos de Douglas de Lima, João Luís Gomes, assim como uma vítima não identificada pela perícia, estavam ao lado da única escada que ligava o andar ao térreo. O IGP relatou dificuldade em identificar os corpos, já que eles apresentavam elevado grau de queimaduras. João foi encontrado com uma das mãos presa no corrimão da escadaria.

Esta escada tinha formato de espiral o que, segundo os bombeiros especialistas em Plano de Prevenção Contra Incêndio ouvidos no inquérito policial, é ilegal. Havia uma segunda escada, esta de formato convencional, mas que estava trancada durante aquela noite.

| Foto: Leandro Maciel / CP

Ainda no segundo andar, foi encontrado Dionatan da Rosa, que estava provavelmente recolhido em seu quarto. O corpo estava carbonizado. Uma outra vítima, não identificada, foi localizada no mesmo andar. Como o cadáver foi encontrado no fundo do fosso de luz, o Instituto Geral de Perícias (IGP) não descarta que ele tenha caído.

No terceiro e último pavimento, os corpos de Maribel Padilha, Lenita Schelek e Julcemar Amador foram encontrados com sinais de intoxicação por gases.

| Foto: Leandro Maciel / CP

Enquanto Julcemar e Maribel estavam em seus prováveis quartos, Lenita foi localizada perto de uma janela, nos fundos do prédio.

Pessoas pularam a janela

relatos de que pessoas saltaram das janelas dos fundos tentando fugir do fogo. Pelo menos quatro hóspedes teriam se jogado naquela madrugada.

A décima primeira vítima foi João Batista Ebani, que morreu três meses depois do incêndio, no hospital Santa Ana. Posteriormente, o IGP revelou que uma das vítimas não identificada era do sexo masculino e outra, do feminino.

Segundo a Polícia, ambos foram sepultados como indigentes, logo depois do incêndio. Nenhum familiar reclamou o corpo dessas vítimas.