Semanas depois, após a Polícia ter localizado o corpo de Bernardo, ela soube o que ele havia cochichado no ouvido de Juçara naquele dia. “Aquela mulher é minha amiga e ela vai mudar a minha vida.” A promotora não conseguiu. Dinamárcia e Bernardo criaram um vínculo. Eles se conheciam desde o final de 2013, quando o menino foi sozinho ao Foro da cidade denunciar o desamor do pai.
A primeira audiência de conciliação entre o pai, o menino, o juiz e a promotora ocorreu no dia 11 de fevereiro. Leandro Boldrini prometeu que iria mudar. Bernardo quis dar uma nova chance ao pai. “O que a gente fez foi o máximo que o Estatuto da Criança e do Adolescente prevê”, afirmou. “As mesmas pessoas que ficam chocadas porque ele não foi tirado do pai são aquelas que se chocariam se fosse tirado o filho de um médico jovem para entregá-lo a uma avó idosa.” A promotora sugere mudanças no estatuto. “Deveria haver uma revisão na questão de sempre ser tentada a permanência na família biológica. A colocação na família substituta é exceção”, avalia.
Um segundo encontro entre Bernardo, Leandro e a promotora, para verificar a situação da família, foi agendado para 13 de maio. Tarde demais. Neste dia, no mesmo horário em que ocorreria a audiência, a Polícia indiciava os então suspeitos pelo assassinato do menino. “Eu não consegui sair da promotoria e ir até o Foro”, lembra. “Seria o dia da audiência do Bernardo para verificar se a situação dele com a família havia melhorado”, assinala.
Com a mesma firmeza com a qual denunciou as quatro pessoas pela morte do menino, na quinta-feira, Dinamárcia revela sua opinião sobre Leandro. “O teatro dele me enganou uma vez, mas agora ele não me engana mais”, garante. O último ato dela como promotora de Três Passos foi denunciar o pai, a madrasta e outras duas pessoas pelo crime. A partir da próxima semana, Dinamárcia estará em São Luiz Gonzaga. “Eu tinha me comprometido com a minha família de voltar para lá”, conta.
Dinamárcia atuou em Três Passos de julho de 2009 a dezembro de 2010. Em agosto do ano passado, retornou de Esteio também para ficar mais perto da família. Na mala, além da lembrança do menino, ela leva o título de cidadã três-passense nunca antes conferido a um promotor do município pelo trabalho que desenvolveu com crianças e adolescentes.