Um dos principais municípios procurados pelos traficantes para esconder substâncias é Canoas, seguido de Cachoeirinha, Gravataí e Vale do Sinos. Grandes quantidades de droga geralmente são encontradas em depósitos, onde são feitos o armazenamento das substâncias ou então durante interceptação de rotas, quando o transporte da droga está sendo feito, em direção à Capital, para que seja efetuada a venda. Isto está ligado às drogas comuns (maconha, crack e cocaína). Em relação às drogas sintéticas (LSD, Ecstasy e Lança Perfume), Souza assinala que as maiores apreensões são realizadas na capital gaúcha, principalmente durante as operações noturnas, que integram as estratégias permanentes do Denarc.
O enfrentamento à venda de drogas é flexível e precisa se alterar conforme as novidades do mercado. Segundo Souza, o tráfico é criativo, então sempre é necessário atualizar os planejamentos das ações. Em relação à maconha, por exemplo, Souza afirma que, durante os últimos anos, as estratégias precisaram ser atualizadas, levando em conta diversos fatores, como a safra, por exemplo.
O Rio Grande do Sul como um todo e os principais municípios onde ocorrem as grandes apreensões são devidamente mapeados pelo Denarc. Desta forma, é possível direcionar equipes e traçar ações diversificadas.
Um dos principais alvos das investigações de combate ao narcotráfico é enfraquecer as facções. Foi o que aconteceu durante a Operação Santo, deflagrada em fevereiro, após três meses de investigação, que desarticulou o maior plano de fuga em massa de presos e a construção de um túnel próximo à Cadeia Pública (antigo Presídio Central). Durante a instrução do inquérito, esclareceu-se que a intenção, com o túnel, era que pelo menos 1.050 presos de uma facção criminosa fugissem. Faltavam aproximadamente 40 metros para a conclusão do plano de fuga. Para não despertar atenção das autoridades, a terra retirada era armazenada dentro dos imóveis. Os ‘tatus’ eram pagos com, no mínimo, R$ 1 mil semanais cada um, além de moradia em outra cidade, transporte até o trabalho e alimentação durante a escavação, pagos pelos contratantes.
Outra ação da Polícia Civil, coordenada pelo Denarc, foi a Operação Harpia, deflagrada em julho, cujo alvo eram as finanças de um líder de facção transferido, naquela ocasião, para o Presídio Federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte. Trata-se de Juliano Biron da Silva. Ele teve quase R$ 5 milhões apreendidos em bens, mas a estimativa é que o bando, com mais de 50 integrantes, com base no Vale do Sinos, tenha movimentado R$ 60 milhões.
Além da repressão, o Denarc organiza atividades como a Operação Anjos da Lei, desenvolvida desde 2011, dentro e nas proximidades de escolas públicas e privadas por todo o Estado. “Precisamos combater o tráfico na escola, pois é onde está a juventude. Os jovens são o futuro da sociedade, mas também podem ser o futuro do crime”, enfatiza Souza. A Operação Anjos da Lei é uma das mais importantes para o Denarc, pois é híbrida e envolve a soma entre prevenção e repressão nas escolas gaúchas. “Atuamos nas escolas também com palestras, não somente na repressão. O policial entra dentro da escola, com a prevenção antes ou depois da ação”, explica. “A Polícia existe para controlar o crime, não para, sozinha, acabar com o contexto do crime. Todos têm que fazer sua parte na segurança pública. É preciso atuar em outras frentes para acabar com o tráfico. Principalmente com a prevenção”, destaca.
Foram cumpridos quatro mandados de prisão temporária, 33 de condução coercitiva e 45 de busca em Porto Alegre, Canoas, Cachoeirinha, Gravataí, Novo Hamburgo, Tramandaí, Imbé, Cidreira e Palmares do Sul. Os presos, conforme as investigações de lavagem de dinheiro desenvolvidas pelo Denarc, vinham coordenando os negócios adquiridos por Biron com a venda de entorpecentes. Ele exercia o comando das transações de dentro do sistema prisional.
A rede gerenciada pelo traficante passou, conforme as investigações da Polícia Civil, a lavar o dinheiro do tráfico por meio do funcionamento de sete lancherias da rede Skillus na região Metropolitana e no Litoral. No total, foram sequestradas 88 contas bancárias em nome de 38 pessoas, 20 veículos avaliados em R$ 1,3 milhão e 16 imóveis, avaliados em mais R$ 2,7 milhões. Entre os bens sequestrados, há ainda terrenos, um apartamento em Balneário Camboriú (SC), que custa R$ 800 mil, um prédio inteiro em Canoas, casas na praia, um sítio no Vale do Sinos, um pub em Cachoeirinha, uma revenda de veículos em Canoas e duas transportadoras – uma delas em Santa Catarina.
Além disso, o nome mais importante preso no tráfico do Rio Grande do Sul este ano foi Neri José Soares, o Neri, de 38 anos. Ele foi capturado durante a Operação Cedrales, no muncípio paraguaio de Los Cedrales, na fronteira entre os dois países, em ação conjunta da Polícia Nacional do Paraguai, Polícia Federal, Polícia do Paraná e Polícia Civil do Rio Grande do Sul. Com passagens pela Polícia desde 2001, por roubo, tráfico, porte ilegal de arma de fogo, homicídio e sequestro, Neri era considerado o narcotraficante número 1 do Estado. Conforme as investigações, ele estava acima das facções e era o maior distribuidor de maconha do Estado, possivelmente o maior, ou um dos maiores, do Sul do Brasil.
Neri agia também em São Paulo e no Rio de Janeiro, além de estar expandindo sua rede para o Nordeste, atuando na Bahia. Segundo a imprensa do país vizinho, o traficante tinha uma grande produção de maconha no Paraguai, movimentando toneladas da droga. A prisão foi efetuada por oito policiais – quatro da Polícia Civil gaúcha e outros quatro da Polícia Nacional do Paraguai – “num lugar extremamente perigoso e num contexto criminoso muito grave”, segundo o delegado Mario Souza. Após a prisão, Neri foi expulso do Paraguai e entregue às autoridades brasileiras.
Nas operações de busca por drogas. além da parte operacional e todo o preparo dos agentes, Mario Souza destaca a importância dos cães de faro. Quando os agentes caninos precisam atuar em alguma operação, eles permanecem “de castigo” no canil para que, quando precisarem sair, estejam com mais vontade ainda de brincar e buscar os entorpecentes - que é a atividade que eles desempenham. Segundo ele, em muitas ações, se não fossem os agentes caninos, os policiais civis poderiam sair sem localizar as drogas e sem responsabilizar os criminosos. “Eles encontram droga onde os humanos dificilmente encontrariam, ou demorariam muito para encontrar. Os cães são de fundamental importância no enfrentamento ao tráfico de drogas”, ressalta Mario Souza.
Região metropolitana é o local preferido dos criminosos para esconder drogas
Um dos principais alvos das investigações de combate ao narcotráfico é enfraquecer as facções