O prefeito de Mostardas, Alexandre Galdino Dorneles Lopes, de 34 anos, nunca imaginou que passaria em Gravataí um dos momentos mais tensos da sua administração. Alvo de um sequestro, que ocorreu na noite dessa quinta-feira, ele só foi libertado pelo Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) no começo da madrugada de sexta. Em entrevista coletiva, Lopes disse que acredita no envolvimento de pessoas próximas da família no crime.
"Por tudo que eles falaram durante o sequestro, eu senti que tem o envolvimento de gente próxima. É alguém que conhece a rotina da família e não é uma pessoa que sabe apenas de me observar. Acho que tem alguém de Mostardas envolvido. É lamentável notarmos que estamos vulneráveis", disse Alexandre Galdino Lopes.
Lopes relatou que a família tem uma propriedade a 20 quilômetros de Mostarda e que lá costuma jantar com os pais na companhia da esposa. "Casualmente, ela tinha um compromisso e eu fui sozinho. Combinei com a minha mãe e jantei na companhia dela, do meu pai e do meu irmão. Cheguei às 20h e saí por volta das 23h", explicou.
Abordagem violenta
Enquanto retornava para casa, Lopes, notou que uma caminhonete vinha em sua direção em alta velocidade. O prefeito pensava que se tratava apenas de um motorista apressada e trocou de pista, passando da esquerda para a direita. "Abri passagem para eles, mas a caminhonete encostou e tentou me jogar para fora da pista. Eles não conseguiram e me ultrapassaram. Em seguida, eles me cortaram e atravessaram a caminhonete na estrada. Vi a sirene da polícia, mas desconfiava de que aquilo nada tinha a ver com uma abordagem policial", comentou.
Lopes recebeu a ordem para mostrar documentos do carro e quando foi abrir o porta-luva do seu carro ouviu um grito. "Me abaixei para pegar os documentos, mas já frustrado, quando um deles disse para eu não pegar nada e descer do carro. Desci e fui algemado. Apenas virei a cabeça e notei que o carro da quadrilha tinha placas de Porto Alegre. Neste momento, tomei um tapa muito forte no rosto e fui conduzido para a caminhonete", afirmou.
Conversa com ironias e brincadeiras
Durante o trajeto até o local do cativeiro, um sítio no distrito de Morungava, em Gravataí, o prefeito relatou que tentava decifrar onde estava no caminho. Alexandre Lopes chegou a pensar que estava indo para Serra, até que se perdeu quando notou que a caminhonete só andava por estradas de chão batido.
"Assim que sentei na caminhonete, olhei para o painel do carro e levei um outro tapa na cara. Um deles, mais calmo, disse que ao autor da agressão para não me bater porque eu não havia reagido. Eles colocaram uma venda em mim e passaram a conversar comigo, dizendo que conheciam a minha rotina e a minha família. Falaram da minha sobrinha que ia para escola e da chegada da minha filha de Pernambuco", disse.
A partir daí, os criminosos começaram a discutir com o prefeito o pagamento do resgate. "Eles me perguntaram o quanto poderiam pagar por mim. Eu disse que em torno de R$ 100 mil e um deles disse: 'tu só pode estar de brincadeira comigo. Nós gastamos 20 mil para correr atrás de ti e vamos ganhar apenas R$ 100 mil. Será que a prefeitura não ganhou algum desvio da petrobras?'".
Alexandre Lopes disse ainda que a quadrilha revelou que tinha tentado me sequestrar por quatro vezes. Todas sem sucesso. O preço da libertação ficou estabelecido em R$ 300 mil, que seria sacado com a ajuda de amigos do prefeito e da mãe.
Já no cativeiro, o prefeito foi levado para um quarto onde foi solto das algemas e teve a venda retirada dos olhos. "Eles tiveram muita calma comigo e me explicaram o que iria ocorrer. Ele me disseram que eu iria fazer as refeições no momento certo e que eu só poderia ir ao banheiro acompanhado por um dele", recordou.
Lopes relatou que pensava em como seria tensa a sexta-feira com o pagamento do resgate. "Eu acabei dormindo e acordei com um tiroteio na casa. Foram muitos tiros e fiquei assustado, pensando que uma bala perdida poderia atravessar o quarto. O tiroteio cessou e ouvi um vidro quebrando. Em seguida, ouvi uma gritaria até que um agente do Deic abriu a porta do quarto. Acordei nas mãos da polícia", finalizou.
Sequestro tem envolvimento de pessoas próximas, diz prefeito
Alexandre Galdino Lopes relatou que acordou com policiais no cativeiro