O caso da adoção de três crianças brasileiras, no final da década de 80, mobilizou há três anos, além do Ministério Público Estadual, a Interpol e a Justiça espanhola. De acordo com o promotor Frederico Medeiros, da promotoria criminal do MP gaúcho, o caso, agora será repassado ao MP Federal. Duas pessoas, ambas mulheres - uma delas servidora pública de Soledade -, são suspeitas de intermediarem, em Soledade, a adoção de três crianças para um casal suíço, atualmente vivendo em Alicante, na Espanha. Até o momento ninguém foi preso ou indiciado por tráfico de crianças.
Foi constatado que a suspeita recebeu remessas da Europa de cerca de R$ 70 mil. A servidora, inclusive, chegou a trabalhar como governanta na casa dos suíços por um tempo.
Há quase três anos Medeiros começou as investigações. De acordo com ele, não há nenhum indício de que as crianças foram adotadas para exploração sexual. Atualmente os dois adotados, com idade de 27 anos, vivem na Europa, um na Suíça e outro na Espanha. Ambos, de acordo com o promotor, têm problemas com drogas.
O casal suíço - o homem morreu há algum tempo e a mulher, atualmente tem 50 anos - adotou duas crianças, na época com dois anos de idade, em Soledade. Os menores foram levados para viver com o suíço, em Alicante, na Espanha.
Quatro meses depois da adoção, um dos menores morreu. Em seguida, o casal adotou mais uma criança. No entanto, em 1994, a Justiça espanhola informou ao juiz de Soledade que uma das crianças havia sido levada para um abrigo, pois estaria sendo vítima de maus-tratos e pedia que não fosse mais deferida nenhuma adoção ao casal suíço. “A criança foi retirada dos pais adotivos por falta de higiene, entre outras coisas”, contou o promotor.
No entanto, entre 2001 e 2002, a suspeita viajou para a Espanha, levando duas crianças para o casal. A acusada alegou que os menores, um casal, já estavam apegados a ela e a intenção era proporcionar uma viagem para eles. Em Alicante, a suspeita apresentou as crianças ao casal, que não quis ficar com eles. “Tanto que ele viajou com as crianças tendo um termo de guarda”, contou o promotor. “Tanto as adoções como esta viagem foram legais”.
No tempo em que esteve em contato com os suíços, foi detectado que outros casais frequentavam a casa dos suíços. Alguns até também estariam querendo adotar crianças. Segundo Medeiros, há escutas em que a suspeita conversa com a suíça, onde a europeia demonstra interesse em crianças da África. “Mesmo se referindo à África, eles (casal) estiveram até em Blumenau para adotar”, disse. “E queriam, de preferência, crianças brancas”.
Em 2007, a Justiça de Soledade recebeu cartas da mulher suíça, que acusava a suspeita de ter lhe furtado alguns objetos e estaria lhe chantageando, pedindo mais dinheiro. O promotor apreendeu três cartas escritas, em espanhol, pela europeia com as denúncias, onde anexou as enviadas pela suspeita. A partir daí começaram as investigações por parte do MP gaúcho, que conseguiu as quebras dos sigilos telefônico e bancário, além dos mandados de busca e apreensão.
“Vejo o caso com crimes como extorsão, falsidade documental, concussão e tráfico internacional de crianças”, afirmou o promotor Frederico Medeiros.
Suspeita em caso de tráfico de crianças recebeu dinheiro e trabalhou em casa de familia suíça
Crianças de Soledade foram adotadas no final da década de 1980