Polícia

Traficante visto como elo entre PCC e CV é suspeito de mandar matar delator

Cerca de 120 policiais civis cumpriram 26 mandados de busca e apreensão na operação

As buscas foram realizadas em diversos endereços
As buscas foram realizadas em diversos endereços Foto : Miguel Schincariol / AFP / CP

Apontado como um dos mandantes da morte do delator do Primeiro Comando da Capital (PCC), o traficante Emilio Gongorra Castilho, o João Cigarreira ou Bil, foi alvo ontem de uma operação da Polícia Civil de São Paulo para prendê-lo. O delator Antônio Vinícius Lopes Gritzbach foi executado a tiros de fuzil na tarde do dia 8 de novembro, no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos.

Cerca de 120 policiais civis cumpriram 26 mandados de busca e apreensão na operação realizada nesta quinta-feira. Pela manhã, a polícia ouviu depoimentos de parentes e pessoas ligadas ao traficante. Ele não foi localizado. Mas estaria no Rio de Janeiro, conforme apontam agora as investigações.

As buscas foram realizadas em diversos endereços, dentre eles um galpão de propriedade de Castilho. No local, a polícia atuou até com o auxílio de cães farejadores.

Segundo apurado pela reportagem, o traficante também seria o elo entre o PCC e a facção Comando Vermelho (CV), do Rio. Durante o planejamento do assassinato, a suspeita é de que ele recebeu auxílio de Diego Amaral, vulgo Didi, também integrante do PCC e procurado pela polícia. A reportagem tentou contato com a defesa dos suspeitos, sem sucesso.

Como o Estadão revelou no dia 18, as investigações apontavam que os policiais militares envolvidos no crime foram contratados por Ademir Pereira de Andrade e Castilho, ambos da facção. O PCC teria oferecido R$ 3 milhões pela morte do delator Dois cabos da PM foram presos apontados como executores do crime, além de um tenente da corporação, que seria o motorista do carro usado no assassinato de Gritzbach.

Também estão presos 14 policiais militares que atuavam como seguranças de Gritzbach. A Polícia Civil acredita que uma parte deles estaria envolvida no assassinato.

A suspeita recai sobre o grupo por causa de um suposto defeito que a Amarok de Gritzbach teve no dia do crime, quando estava a caminho do aeroporto para buscá-lo, o que favoreceu a ação dos executores.

Motivação

O crime teria sido motivado pelo fato de Gritzbach estar solto e ter revelado às autoridades nomes de faccionados, além dos esquemas de lavagem de dinheiro do PCC com diversas empresas.

Ao Ministério Público, o delator forneceu informações sobre as operações da facção e também denunciou policiais de dois departamentos de Polícia Civil e duas delegacias da cidade de São Paulo. Ele relatou como inquéritos foram supostamente manipulados por policiais para livrar integrantes do PCC da acusação de crimes, mediante pagamento de propinas em dinheiro e até mesmo com a transferência da propriedade de imóveis.

Desde novembro, quando o empresário foi morto, 26 suspeitos foram presos. Dentre eles, 17 policiais militares, cinco policiais civis e quatro pessoas suspeitas de relação com Kaue Amaral Coelho, apontado como "olheiro" dos assassinos no dia da execução. Ele ainda está foragido e a Secretaria da Segurança Pública oferece R$ 50 mil por informações sobre ele que permitam sua prisão.

No início deste mês, um delegado citado nas investigações foi alvo de buscas em seus endereços. Ele teria recebido pagamentos periódicos com dinheiro decorrente de corrupção policial em favor da facção.

A investigação

Antonio Vinicius Lopes Gritzbach, de 38 anos, estava no centro de uma das maiores investigações feitas até hoje sobre a lavagem de dinheiro do PCC em São Paulo, envolvendo os negócios da facção na região do Tatuapé, zona leste paulistana.

Sua trajetória está associada à chegada do dinheiro do tráfico internacional de drogas ao PCC. Ele fechara acordo de delação premiada em abril do ano passado.

Gritzbach era um jovem corretor de imóveis da construtora Porte Engenharia quando conheceu o grupo de traficantes de drogas de Anselmo Bechelli Santa Fausta, o Cara Preta. Vinícius Gritzbach foi demitido pela empresa em 2018. A empresa informa que "jamais teve conhecimento acerca dessas relações até que as investigações viessem a público".

Foi a acusação de ter mandado matar Cara Preta, em 2021, que motivou a primeira sentença de morte contra ele, decretada pela facção.

Para a polícia, Gritzbach havia sido responsável por desfalque em Cara Preta de R$ 100 milhões em criptomoedas e, quando se viu cobrado pelo traficante, decidira matá-lo. O empresário teria contratado Noé Alves Schaum para matar o traficante.

O crime foi em 27 de dezembro de 2021. Além de Cara Preta, o atirador matou Antonio Corona Neto, o Sem Sangue, segurança do traficante. Conforme as investigações, Schaum foi capturado pelo PCC em janeiro de 2022, julgado pelo tribunal do crime e esquartejado por um criminoso conhecido como Klaus Barbie, referência ao oficial nazista que atuou na França ocupada na 2.ª Guerra, onde se tornou o Carniceiro de Lyon.

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