Depois de manter a ex-mulher em cárcere privado por quase 70 horas, o vigilante Rodrigo Luciano Luz pode ser indiciado por até cinco crimes. Três estão bem claros: cárcere privado, tentativa de homicídio e porte ilegal de arma de fogo. Outros dois estão sendo apurados: receptação e estupro.
De acordo com informações da Brigada Militar, o veículo que Rodrigo dirigia seria clonado. Além disso, a vítima teria revelado que foi vítima de estupro pelo ex-marido. Na noite desta segunda-feira, Josiane Pontes realizava exame de corpo de delito para confirmar se houve ou não o crime.
O vigilante Rodrigo Luciano Luz, de 32 anos, que mantinha em cárcere privado a ex-mulher, a operária Josiane Pontes, de 29, desde as 23h da última sexta-feira, em Canoas, se entregou, às 20h24 desta segunda-feira.
Depois de exigir a presença da imprensa, primeiro Rodrigo abandonou a arma e liberou a ex-mulher. Em seguida, policiais do Gate entraram na residência e fizeram a prisão. Ninguém se feriu. Quando o cerco foi desfeito, populares e vizinhos aplaudiram a ação.
Algemado, o sequestrador passou por exame de corpo de delito e levado à Delegacia de Polícia de Pronto-Atendimento, em Canoas. A vítima, que chegou a desmaiar, foi atendida, no Hospital de Pronto Socorro, em Canoas. Josiane só deve depor nesta terça-feira.
O delegado plantonista da 1ª DPPA de Canoas, Luiz Francisco Pires, já ouviu os policiais que atenderam o caso e os cunhados de Josiane. Luz deve ser indiciado por cárcere privado da mulher e dos dois filhos, porte ilegal de arma e tentativa de homicídio. O hospital de Canoas vai, agora, analisar um possível crime de estupro no cativeiro, hipótese que foi levantada pela Brigada Militar. A Polícia também já confirmou que o Fiat que Luz estacionou em frente à casa era clonado.
Caso desafiou a BM e foi o maior do tipo na história da Polícia gaúcha
O cárcere privado foi o maior já registrado pela Polícia gaúcha. De acordo com o subcomandante da Brigada Miltiar, coronel Jones Calixtrato, o maior desafio para libertar a refém foi estabelecer uma relação de confiança com o vigilante. Por no mínimo três vezes, as negociações evoluíram e retrocederam. De dentro da casa, ele demonstrava medo de ser morto pelos policiais. Nas portas, Luz montou barricadas com pedras e sacos de cimento e ferro, o que acabou confirmando a tese da Polícia de que era melhor não invadir a casa e evitar uma tragédia.
No cativeiro, Rodrigo não agrediu Josiane fisicamente. Manteve a ex-mulher sob a mira da arma e a ameaçou, mas não bateu nela. Um dos pontos mais tensos ocorreu às 18h30min de sábado, quando Rodrigo ameaçava matar a mulher e depois se matar. Foi preciso acalmá-lo, com a ajuda de familiares e amigos. Na visão da Brigada Militar, o desfecho sem violência para o caso ficou encaminhado na manhã de domingo. Com fome, Rodrigo prometeu aos negociadores não matar a ex-mulher em troca de comida. Dois sanduíches foram entregues à dupla.
"Foi uma negociação muito difícil e teve diversos momentos complicados", disse o major Francisco Lannes Vieira, um dos responsáveis por negociar com o vigilante. Além dele, o também major Rogério Araújo Souza participou das conversas e confirmou as palavras do colega. Os dois oficiais da Brigada Militar relataram, ainda, que por diversos momentos temeram pelo pior.
Um gabinete de crise, com sete oficiais da BM, foi montado para a tomada de decisões. Vencia sempre a maioria simples. Nas últimas horas de cárcere, a psicóloga e a advogada de Luz ajudaram a convencer a vítima a se render e a liberar a ex-mulher. Os filhos do casal acompanharam tudo de perto, na casa ao lado. Hoje, almoçaram com policiais, que os acalmaram e prometeram levá-los a uma partida do Internacional, em data a ser combinada.
Cabe, agora, à Polícia Civil, esclarecer pontos que não ficaram claros para a Brigada Militar: como Luz se manteve acordado, das 23h de sexta-feira até a noite de segunda-feira, e onde ele comprou a arma, 24 horas antes de tomar os filhos e a ex-mulher como reféns.
Como tudo começou
Armado com um revólver calibre .38, Luz entrou na casa na noite de sexta-feira, fazendo a família refém e desferindo um tiro de raspão contra o cunhado. O vigilante liberou os dois filhos do casal, uma menina de 8 anos e um menino de 11, no começo da manhã de sábado. Ao longo do fim de semana, amigos e familiares foram envolvidos nas negociações, além de uma psiquiatra, que garantiu a ele tratamento ao deixar a casa. O filho do casal também retomou o contato com o pai, sem conseguir dissuadi-lo do sequestro. Um dos compadres de Luz recebeu ligações frequentes do vigilante. Para ele, revelava suas angústias e pedia conselhos. "Eu estou tentando apaziguar a situação", dizia o amigo de dez anos, no domingo.
Vigilante pode ser indiciado por até cinco crimes
Caso de cárcere privado foi o mais longo registrado pela Brigada Militar no Rio Grande do Sul