de superfaturamento, desvios de recursos e caixa 2 na estatal, denunciado na Operação Lava Jato. Em depoimento à Justiça, o doleiro Alberto Youssef revelou que os envolvidos chegaram a trancar a pauta de votações por 90 dias para que ele aceitasse a nomeação.
"Tenho conhecimento que, para que Paulo Roberto Costa assumisse a cadeira de diretor de Abastecimento, esses agentes políticos trancaram a pauta no Congresso por 90 dias. Na época era o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ficou louco, teve que ceder e realmente empossar o Paulo Roberto na diretoria de Abastecimento", disse Youssef.
Ontem à noite, em plenária do PT realizada no centro de São Paulo, Lula disse estar que já "está de saco cheio de denúncias em vésperas de eleição". "É todo ano a mesma coisa", declarou. Escalado pelo ex-presidente para rebater as acusações de Youssef, o deputado Arlindo Chinaglia, líder do governo na Câmara no período em que Costa foi nomeado diretor de Abastecimento da Petrobrás, apresentou dados que negam trecho do depoimento do doleiro.
Segundo Chinaglia, nos três meses que antecederam a nomeação de Costa, a Câmara votou 4 projetos de emendas à Constituição, 37 medidas provisórias, 3 projetos de lei, 8 projetos de decreto legislativo e 8 projetos de resolução. O Senado, no mesmo período, votou 35 medidas provisórias, 11 projetos legislativos, 55 projetos de decreto legislativo, um projeto de resolução e 259 requerimentos de informações e auditorias. "Isso demonstra que qualquer depoimento tem que ser verificado", disse o deputado.
O doleiro e o ex-diretor da estatal disseram à Justiça ter participado de amplo esquema de loteamento político de
diretorias da Petrobrás. Segundo eles, as propinas variavam de 1% a 3% do valor dos contratos, "muitos bilhões de reais", abasteceram partidos - PT, PMDB e PP - e serviram de caixa 2 em 2010.
Costa e Youssef afirmaram que desde 2004 cinco diretorias da estatal foram divididas entre as três legendas para cobrança de propina de empresas em troca de grandes contratos, "com conhecimento do loteamento político tanto da presidência da companhia como do presidente da República".
Diretorias
O PT controlava três diretorias: Serviços e Engenharia; Gás e Energia e Produção e Exploração. "Na diretoria de Serviços todos sabiam que tinha um porcentual desses contratos da área de Abastecimento", disse Costa. "Dos 3%, 2% eram para atender o PT", afirmou. Segundo ele, "outras diretorias, como Gás e Energia e Exploração e Produção, também eram do PT". "Nesses casos, os 3% eram para o PT, não tinha participação do PP."
O PMDB, segundo Costa, controlava a diretoria Internacional, então sob comando de Nestor Cerveró, citado na polêmica compra da refinaria de Pasadena (EUA). "Dentro da diretoria Internacional era o Nestor Cerveró quem foi indicado por um político e tinha ligação muito forte com o PMDB", disse.
Youssef e o ex-diretor da estatal apontaram Fernando Soares, conhecido como Fernando Baiano, como operador desse esquema agindo pelo PMDB. Eles detalharam como era o esquema de cobrança de propina de grandes empreiteiras que alimentou o caixa 2 do PP, do PT e do PMDB. "O contrato é um só, uma obra da Camargo Corrêa, R$ 3,4 bilhões. Ela tinha que pagar R$ 34 milhões por aquela obra para o PP. Tinha que pagar mais 1%, ou 2% como Paulo Roberto está dizendo, para outro operador, no caso João Vaccari."
Segundo eles, a área de Abastecimento era cota do PP. O doleiro afirmou que eram feitas reuniões na casa de políticos onde eram feitas atas sobre o esquema de caixa 2 que irrigou campanhas de 2010. "Fazíamos reuniões em hotéis, no Rio ou em São Paulo, ou na própria casa dos agente político", revelou Youssef.
O doleiro afirmou que diariamente se reunia com Costa e agentes políticos. "Eu não fui o criador dessa organização. Fui a engrenagem para que se pudesse haver o recebimento e os pagamentos aos agentes públicos." Youssef afirmou que na diretoria de Abastecimento o valor cobrado era de 1%. "Sempre se teve um entendimento que a
diretoria de Abastecimento era 1%. Se a Engenharia cobrava mais que 1%, é novidade", argumentou.
Ele disse que tanto José Eduardo Dutra, então presidente da Petrobrás, em 2004, como seu sucessor, Sérgio Gabrielli,
sabiam do loteamento político da estatal. Youssef e Costa confessaram que as empresas montaram cartel para loteamento de grandes obras e que operadores dos partidos políticos agiam em parceria com os diretores da estatal.