Política

Aliança de centro-esquerda ganha força em posse do PT gaúcho

Em ato no qual Valdeci Oliveira assumiu presidência petista, Juliana Brizola garante que PDT quer construir grande palanque para Lula no RS

Potenciais aliados, ex-governadores e ex-prefeitos da Capital marcaram presença no ato
Potenciais aliados, ex-governadores e ex-prefeitos da Capital marcaram presença no ato Foto : Débora Beina/Divulgação/CP

Surpreendendo até mesmo parte dos petistas presentes, os pronunciamentos de Juliana Brizola (PDT), Manuela D’Ávila e Beto Albuquerque (PSB) deram ares de campanha à posse do deputado estadual Valdeci Oliveira na presidência do PT gaúcho. O debate sobre as eleições de 2026 dominou o ato, realizado no sábado, na sede da AIAMU, no Centro. As manifestações explicitaram articulações que ocorrem há meses para a formação de uma aliança de centro-esquerda no pleito do próximo ano. E reforçaram, entre os presentes, o entendimento de que, nos bastidores, as negociações podem estar avançadas.

Pré-candidata do PDT ao governo do Estado em 2026, Juliana foi ovacionada pela plateia ao defender explicitamente a formação de uma coalizão no RS. “O flerte com o golpismo, a falta de compromisso com a democracia e com o povo e a história do nosso país, fazem com que nosso campo tenha uma responsabilidade muito grande neste momento. É o momento de todos sentarmos à mesa e nos despirmos de vaidades, para que possamos apresentar ao RS um retorno do que o RS é. Venho aqui dizer para todos vocês, olho no olho, que o PDT quer construir um grande palanque para o presidente Lula”, afirmou a pedetista.

A fala da ex-deputada, detentora de índices consideráveis de intenções de voto para a corrida ao Piratini, demarcou duas linhas importantes para os petistas, que buscam liderar uma frente apresentando eles o candidato ao governo (no atual cenário, o presidente da Conab, Edegar Pretto).

A primeira: a garantia do não-alinhamento ao que será defendido pela chapa do vice-governador Gabriel Souza, pré-candidato do MDB ao Piratini, e do governador Eduardo Leite (PSD), cotado para o Senado, independente de o PDT estar hoje na base do governo, pois Leite e Gabriel estarão em campo oposto ao de Lula na corrida nacional. A segunda: mesmo que a pedetista assegure seu objetivo de liderar uma chapa para o governo, há agora chances de conversa até recentemente bloqueadas.

O trabalho das lideranças petistas do RS desde as eleições para a prefeitura de Porto Alegre no ano passado é para que Juliana aceite a vaga de vice em uma chapa encabeçada pelo PT ao governo. O PDT como um todo, porém, resiste a essa possibilidade.

Partidários de Juliana querem que ela concorra mesmo ao governo. A bancada estadual trabalha para seguir na aliança com Leite. O comando da sigla no RS não esconde sua preferência para que a neta de Leonel Brizola dispute uma cadeira na Câmara dos Deputados. E Juliana, por sua vez, demonstra, desde a corrida à prefeitura, que tem força para definir uma opção mesmo que esta não tenha o endosso de parte dos líderes trabalhistas.

Novo presidente prefere utilizar a expressão ‘centro-democrático’ para definir campo

Depois da pedetista, foi a vez de Beto Albuquerque defender a aliança com os petistas no RS. O partido do deputado também está dividido no Estado, onde trava uma disputa interna pelo comando. De um lado está o grupo de Beto, que defende reaproximação com o PT gaúcho e formação da frente. De outro, o das lideranças, entre elas os dois deputados da sigla, que desejam permanecer na base de Leite e apoiar Gabriel para o governo.

No ato, Beto deixou claro que vai trabalhar pelas candidaturas vinculadas à reeleição de Lula, e cobrou, inclusive, que o governo federal “pare de dormir com o inimigo”, em referência ao espaço dos partidos do Centrão na gestão do presidente petista.

O ex-deputado descartou a existência de mais de uma alternativa para os campos da esquerda e da centro-esquerda tanto na eleição nacional como na estadual. “Só há uma possibilidade para nós. É estarmos juntos na reeleição do Lula e do Alckmin e, aqui no RS, juntos para vencermos as eleições e darmos o palanque necessário para o enfrentamento”, elencou, para, na sequência, finalizar com um “Viva o PT, viva Lula, viva o Brasil!”

Em sua manifestação, Manuela seguiu na mesma linha. Ela defendeu uma coalizão no RS usando como mote justamente a negociação de chapas adversárias dentro do PT, que encerrou a corrida pelo comando e resultou na direção que tomou posse no sábado.

“A felicidade que estamos sentindo neste momento é a felicidade da possibilidade de unidade. Os meus compromissos são os compromissos das mulheres e homens que se separam, tem diferenças, mas que se juntam nos momentos mais importantes da história”, afirmou a ex-deputada. Manuela tem convites para se filiar ao PSol e ao PSB, e deve ocupar uma das vagas ao Senado na chapa.

A prioridade de uma aliança no RS pautou também o discurso do novo presidente do PT gaúcho. Conhecido internamente por usar mais a expressão ‘centro democrático’ do que a palavra esquerda, o deputado Valdeci Oliveira disse que o cenário atual exige que o partido fortaleça sua capacidade de diálogo e prometeu que a legenda “fará sua parte” no processo. “Precisamos ouvir muito, formular muito, compor muito e alargar nosso poder de ação”, assinalou.

Em meio ao clima festivo e às manifestações por unidade, acabou por chamar a atenção a ausência no ato de algumas das principais lideranças do PSol.