Política

Analistas fazem previsões pouco otimistas para eleições de 2018

Na campanha do ano que vem, vai valer até dedo no olho, segundo cientista político

Analistas fazem previsões pouco otimistas para eleições de 2018
Analistas fazem previsões pouco otimistas para eleições de 2018 Foto : Mauro Schaefer / CP Memória
A um ano da votação que vai decidir as eleições gerais de 2018, analistas políticos definem o cenário pré-eleitoral como uma página em branco e fazem projeções pouco otimistas para o pleito apontado como o mais conflagrado desde o início da redemocratização do país, há quase 30 anos. Em 2018, após cinco anos ininterruptos de crise política, os eleitores escolherão presidente da República, governadores, senadores e deputados federais e estaduais.

O clima de instabilidade é marcado pelas investigações da Operação Lava Jato, que atingem políticos e grandes empresários; pela baixa popularidade do governo federal; por um Congresso manchado pelas denúncias de corrupção; pela crescente judicialização da política; pela ascensão da “nova direita” e por um extremismo crescente.

“As coisas estão acontecendo em tal velocidade que qualquer projeção pode mudar em uma semana. Mas, se tivesse que resumir, eu diria que, na campanha do ano que vem, vai valer até dedo no olho, e que a eleição vai acentuar ainda mais a divisão social que já presenciamos. A questão, que se coloca inclusive para além da eleição, é como o próximo presidente eleito vai conseguir governar um país em que a polarização partidária se transformou em uma grande radicalização social”, projeta o professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Ufrgs, Paulo Sergio Peres.

Peres chama a atenção para o fato de que, na corrida presidencial, diferentemente das especulações, dificilmente surgirá um candidato “de fora” da política, e de que a histórica polarização entre os grupos que se aglutinam em torno do PT e do PSDB desde a primeira eleição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1994, tende a se manter.

“Vão se apresentar Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede). Pela direita mais radical, provavelmente Bolsonaro (PSC). No PT, Lula poderá ser preso, impedido ou até mesmo desistir, mas o partido terá candidato. Por enquanto, ou Fernando Haddad ou Jacques Wagner. E, no PSDB, ou vai Geraldo Alckmin ou vai João Dória que, ao contrário do que diz, sempre esteve envolvido com política. Então, de fora da política não tem ninguém. Não teremos um novo Collor, mas isso não significa que teremos alguém melhor”, completa o cientista político.

“O que podemos concluir até o momento é que há uma procura pelo anti-Lula. Mas, por mais que o cenário indique para o surgimento de um outsider na corrida presidencial, ele terá vínculo com os partidos consolidados. Ou seja, pode até entrar como se fosse um outsider, mas, na verdade, já estará comprometido com determinados grupos”, adianta a cientista política e também professora do PPG em Ciência Política da Ufrgs, Silvana Krause.

A pesquisadora faz ainda ressalvas em relação à renovação no Parlamento. “Há uma diferença entre renovação de nomes e renovação de posições. No Congresso, por exemplo, temos acompanhado a perpetuação de linhagens. No caso do Parlamento, a questão da cláusula de barreira também deixa o cenário em aberto. Talvez o que chamo de empreendedorismo partidário possa ser desestimulado, mas ainda não há certeza”, aponta Krause.

Na semana que passou, o plenário do Senado aprovou a aplicação de uma cláusula de barreira gradativa a partir de 2018. Por ela, no próximo ano, os partidos precisarão atingir 1,5% dos votos, em ao menos nove Estados. As siglas que não alcançarem esse índice não terão direito a recursos do fundo partidário, nem a tempo de rádio e TV. O fundo se tornou ainda mais cobiçado após o fim das doações empresariais, que vale desde 2016.

Risco de ruptura

As manifestações recentes de integrantes do Exército a favor de uma nova intervenção militar no país são, para analistas políticos, motivo de preocupação. Primeiro, o general Antônio Hamilton Mourão se posicionou durante um evento. Depois, o general da reserva Luiz Eduardo Rocha Paiva, defendeu a intervenção em um artigo para o jornal O Estado de São Paulo.

“Os militares saíram muito mal de 1964 e sabem disso, então, não há mesmo uma maioria que defenda o retorno ao comando político do país”, destaca o professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), Carlos Sávio Teixeira.

No final de setembro, após o episódio Mourão, o professor publicou um artigo no jornal online El País Brasil, onde aborda o pouco apreço de parte da sociedade brasileira pela democracia, e a falta de seriedade com que a democracia do país trata suas Forças Armadas, destacando que isso gera disfuncionalidades.

No caso, na avaliação de Sávio Teixeira, ao invés de se concentrarem na Defesa Nacional, as Forças Armadas acabam se preocupando com assuntos “de fora de sua especialidade e jurisdição”.

“Estas manifestações são preocupantes justamente em função da velocidade da qual falamos. É uma possibilidade pequena hoje a de uma intervenção militar. Mas, infelizmente, ela é maior do que era em 2016, ou seja, não dá para dizer que não existe”, emenda o professor Paulo Sergio Peres.