O ataque a tiros sofrido por dois dos três ônibus do comboio do ex-presidente Lula na estrada entre Quedas do Iguaçu e Laranjeiras do Sul, no interior do Paraná, na última terça-feira, e as ameaças ao ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin e à sua família tiveram forte repercussão no país nessa quarta-feira.
O clima de confronto gerou manifestações críticas do presidente Michel Temer, do presidente do Senado, Eunício Oliveira, da Câmara, Rodrigo Maia, e de entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil e dos magistrados.
A Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) emitiu nota onde critica às ameaças sofridas por Fachin. Segundo a entidade, formada por mais de 14 mil juízes de todas esferas, é "inaceitável qualquer tipo de ameaça a um membro do Poder Judiciário”.
Em Curitiba, os ataques a tiros à caravana do PT também geraram polêmica entre os pré-candidatos do PT à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, e Jair Bolsonaro (PSL-RJ), ontem, durante mobilizações realizadas por ambos em Curitiba.
Bolsonaro (PSL-RJ), recebido no aeroporto da cidade por grande número de apoiadores, ironizou os ataques sofridos pela caravana de Lula pelo Sul do país. “Lula quis transformar o Brasil num galinheiro, agora está por aí colhendo ovos por onde passa”, disse o parlamentar em cima de um carro de som estacionado em frente ao aeroporto da capital paranaense.
Ele também ironizou a iminência de prisão de Lula, condenado em segunda instância por corrupção e lavagem de dinheiro.“Não quero ele na cadeia. Quero ele em cana. Ele não gosta tanto de cana, vai levar cana”, disse. Em frente ao deputado, uma faixa afixada no carro de som dizia: “Lula ladrão. Em Curitiba, só na prisão”.
O pré-candidato foi carregado nos braços pelos manifestantes da área de desembarque até o carro de som. Bolsonaro desembarcou acompanhado do deputado Eduardo Bolsonaro, do ator Alexandre Frota e lideranças locais, além de Francischini.
No saguão no aeroporto, foi recebido por cerca de 400 pessoas, aos gritos de "Mito, Mito". Entre os apoiadores, havia representantes de grupos de extrema direita, como Revoltados On Line, Endireita Paraná e Lava Togas.
Mais cedo, em vídeo divulgado em suas redes sociais, Lula classificou como "inadmissível" o ataque a tiros a dois ônibus de sua caravana. Na gravação, feita durante um discurso do petista em um ato da caravana no interior do Paraná, o ex-presidente pediu que os governos estadual e federal garantam o direito de ir e vir a todos os brasileiros.
“É inadmissível, ainda mais atacar um ônibus que tem a imprensa. O que é que tem a ver a imprensa com isso? Se querem brigar comigo, vamos brigar. Não sou de correr da briga, mas vamos respeitar a democracia nesse país. A democracia pressupõe a convivência na adversidade. Cada um é o que quiser no futebol, na religião, no sexo, cada um faz a opção que quiser”, disse Lula, durante discurso.
O ex-presidente afirmou esperar que os governantes assumam a responsabilidade de garantir segurança para todas as manifestações. Lula chamou seus adversários a disputarem com ele dentro da arena política: “O que estamos vendo agora não é política. Se eles quisessem derrotar o PT, seria muito fácil.
Lança candidato, vamos pra urna, quem vencer toma posse, quem perder vai chorar, como eu chorei tantas vezes”. Falando de forma genérica sobre vários tipos de agressões que sua caravana pelo Sul do país tem sofrido, Lula atacou o que chamou de “grupos fanáticos”. “Não podemos permitir grupos fanáticos nesse país, achando que podem ofender mulher, chamar negro de vagabundo, chamar índio de vagabundo...”, afirmou.
Eunício e Maia cobram investigação
Os ataques à caravana do ex-presidente Lula foram condenados pelos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (Dem-RJ), e do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE).
Em sua conta do Twitter, Maia classificou como gravíssimo o disparo de tiros contra dois ônibus que acompanhavam o petista no Paraná. “Foi o ponto final de alguns dias de absurdos, uma tentativa de inviabilizar a mobilização do ex-presidente”, escreveu. Maia cobrou o governo Temer, por meio do Ministério da Segurança, para que tome providências em relação a episódios como esse. Segundo ele, o Estado deve apresentar soluções firmes, rápidas e exemplares para que a violência não se repita.
No Ceará, Eunício disse que ameaças como as sofridas por Lula e pelo ministro do STF Edson Fachin são também ameaça à democracia. “Nós não vamos tolerar, eu tenho convicção que nós vamos encontrar os culpados. A democracia não aceita esse tipo de comportamento. É lamentável que, em um regime democrático, as pessoas queiram, pela força, contrariar a vontade da população brasileira, da Justiça e do Parlamento. Quem faz vida política, quem está exposto, quem defende causas não pode ter medo de ameaça”, afirmou.
Temer lamenta tiros a ônibus do PT
Em entrevista à rádio Band News, de Vitória (ES), o presidente Michel Temer lamentou o relato do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, de que sua família vem sofrendo ameaças e os ataques a tiros à caravana do ex-presidente Lula.
“É uma pena que tenha acontecido isso (ataque a tiros a ônibus de Lula) porque vai criando um clima de instabilidade no país, de falta de pacificação que é indispensável no presente momento. Prego isso a todo momento e lamento muito que tenha acontecido. Agora, devo dizer também que essa onda de violência não foi pregada, talvez, por aqueles que tomaram essa providência. Talvez tenha começado lá atrás. E a história do uns contra outros realmente cria essa dificuldade que gera atritos dessa natureza”, disse.
Temer pregou a pacificação durante o período eleitoral e disse que os candidatos podem apresentar críticas verbais, e não físicas. Ao ser questionado sobre a expectativa para o julgamento do habeas corpus preventivo do ex-presidente Lula, na próxima quarta-feira, no Supremo Tribunal Federal, Temer disse que o governo está tomando todas as providências para evitar conflitos.
"É claro que aqui estamos todos tomando todas as providências para que não haja conflito (durante o julgamento), mas é preocupante e veja que isso alcança até o STF. Os membros do Supremo ficam aflitos com isso”, disse. Para Temer, as ameaças que a família do ministro Fachin têm sofrido“não podem acontecer no país”. O STFjá reforçou a segurança do ministro Fachin e de seus parentes.
Após tiros no Paraná, tensão política cresce e gera reações
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