Associações de jornalismo criticaram a divulgação, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), de conversa entre o jornalista Reinaldo Azevedo e Andrea Neves, irmã do senador Aécio Neves, no âmbito da investigação relativa à delação da JBS. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) emitiu nota em que diz que "vê com preocupação a violação do sigilo de fonte protagonizada pela Procuradoria Geral da República".
Ainda de acordo com a associação, a "inclusão das transcrições em processo público ocorre no momento em que Reinaldo Azevedo tece críticas à atuação da PGR, sugerindo a possibilidade de se tratar de uma forma de retaliação ao seu trabalho" e "considera que a apuração de um crime não pode servir de pretexto para a violação da lei, nem para o atropelo de direitos fundamentais como a proteção ao sigilo da fonte, garantido pela Constituição Federal." Já a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) disse manifestar "profunda preocupação com o comportamento da Procuradoria Geral da República".
A entidade afirma que o episódio é ainda mais grave já que o conteúdo do diálogo "não tem nenhuma conexão com a investigação protagonizada pela PGR". "Os áudios, portanto, jamais poderiam ser anexados ao inquérito e divulgados publicamente", diz a nota.
A ABI afirmou, ainda, que espera que esse episódio não volte a se repetir e que "as investigações da PGR prossigam dentro do que estabelece o ordenamento jurídico do país, ao invés de agredir garantias, ignorar direitos e macular fundamentos consagrados pela Carta de 1988".
O diálogo foi publicado pelo site BuzzFeed nesta terça-feira. Segundo a reportagem, a conversa entre Azevedo e a irmã de Aécio ocorreu no dia 13 de abril, logo após a abertura dos conteúdos da delação da Odebrecht. Eles também conversaram sobre Rodrigo Janot, procurador-geral da República. Azevedo anunciou, no mesmo dia, sua demissão da revista e afirmou que dar publicidade a "esse tipo de conversa é só uma maneira de intimidar jornalistas".
Os áudios fazem parte de um lote de gravações liberado pelo ministro Edson Fachin na semana passada após o fim do sigilo das delações. Em notas, a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal negaram ter divulgado a conversa. De acordo com a PF, a gravação dos diálogos foi feita no mês de abril, por decisão judicial do ministro Edson Fachin, e que "somente o juiz do caso pode decidir pela inutilização de áudios que não sejam de interesse da investigação".
O ministro Gilmar Mendes também criticou a divulgação da gravação. "A lei que regulamenta as interceptações telefônicas é clara ao vedar o uso de gravação que não esteja relacionada com o objeto da investigação. É uma irresponsabilidade não se cumprir a legislação em vigor", afirmou.
Associações de jornalismo criticam divulgação de áudios de jornalista com irmã de Aécio
Entidades afirmam que conteúdo do diálogo "não tem nenhuma conexão com investigações da PGR"