O carcereiro Jaércio da Cunha Braga, afastado das funções após a descoberta de regalias concedidas ao ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Milton Leite (União Brasil), na Cadeia Pública de Mogi das Cruzes (Grande São Paulo) alegou aos promotores do Gaeco que o dinheiro em espécie encontrado em sua casa na sexta-feira, cerca de ao todo, R$ 147 mil e US$ 10 mil, somando quase R$ 200 mil, é fruto de "economia de uma vida inteira". Ele disse que a quantia também tem origem na venda de uma casa de sua sogra e que outra parte da reserva pertence a seu filho, funcionário de banco.
Com 37 anos de carreira, o carcereiro recebe salário de R$ 9.831,94 mensais. Braga afirma que não contemplou o ex-vereador com mordomias. O Estadão busca contato com a defesa do carcereiro. O espaço está aberto.
Dinheiro e defesa do carcereiro
Além do dinheiro achado na residência do carcereiro, a Promotoria encontrou um maço de notas totalizando R$ 4 mil em sua posse. A explicação de Braga para esse valor: o dinheiro é de sua propriedade, "de uso corriqueiro e normal, pois não mantém dinheiro em banco".
O carcereiro foi ouvido no sábado, um dia após a força-tarefa de promotores do Gaeco (braço do Ministério Público que enfrenta o crime organizado) e delegados da Corregedoria da Polícia Civil efetuar uma blitz que flagrou na cadeia regalias ao ex-vereador, preso no dia 18 de setembro na Operação Vectura Corrupta, investigação sobre suposto elo de Milton Leite com um esquema do PCC instalado no transporte público da capital.
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A investigação das regalias
Milton Leite nega ligação com a facção. Ele afirma que nunca financiou ou deu apoio ao PCC e que vai provar sua inocência. O ex-vereador está preso em regime temporário por 30 dias - prazo prorrogado na semana passada. Nesta terça ele foi removido para o Centro de Detenção Provisória (CDP) de Guarulhos.
A ação do Gaeco e da Corregedoria na cadeia de Mogi foi autorizada pelo juiz Domicio Whately Pacheco e Silva, da Vara Regional das Garantias de Guarulhos. As buscas foram acompanhadas de efetivos da Polícia Militar e da Polícia Penal, com emprego de cães farejadores.
O juiz expediu três mandados de busca e apreensão, incluindo o endereço residencial do carcereiro, as dependências do 1.º Distrito Policial e a cadeia de Mogi das Cruzes.
Fluxo de visitas e monitoramento
Segundo a Promotoria, havia um "fluxo incessante" de visitantes, muitos deles sem qualquer vínculo familiar com o ex-vereador, "completamente destoante das suas condições de custodiado, entre outras regalias incompatíveis com o cárcere".
Há cerca de duas semanas foi instalada uma câmera de vídeo em frente à cadeia para monitoramento do local. Relatório Técnico de Análise Preliminar indica que Milton Leite recebeu visitas de políticos, entre deputados e prefeitos aliados, e muitos amigos fora dos dias e horários permitidos, inclusive à noite e aos finais de semana, além de outras benesses.
Tudo seria facilitado pelo carcereiro Braga, segundo suspeita o Ministério Público. Foram realizadas diligências de campo com o apoio de policiais disfarçados nos dias 8 e 9 de outubro.
Próximos passos da apuração
Com as primeiras descobertas, a Promotoria instaurou Procedimento Investigatório Criminal (PIC). Ainda no sábado, a Corregedoria da Polícia Civil abriu inquérito e uma apuração preliminar que vai desencadear em um Processo Administrativo Disciplinar. Segundo os investigadores, os fatos podem configurar os crimes de corrupção passiva, corrupção ativa e prevaricação.
O celular de Braga foi apreendido. A Promotoria acredita que a extração do conteúdo de mensagens armazenadas no aparelho do carcereiro poderá levar a outros policiais supostamente envolvidos na rede de mordomias da qual o ex-presidente da Câmara paulistana se teria valido e também a nomes de políticos que foram à cadeia em períodos incompatíveis.
O Estadão apurou que os primeiros depoimentos já tomados indicam contradições e revelam uma rotina de desmandos na cadeia, por ausência de controle de acessos à prisão, de verificação de visitas, de transparência e de rigor. Uma "cadeia mal gerenciada", na definição de um investigador.