O clima no PMDB é de apreensão depois da deflagração da sétima fase da operação Lava Jato, que prendeu na sexta-feira o ex-diretor da Petrobras Renato Duque e executivos das maiores empreiteiras do país. Assim que a Polícia Federal começou a cumprir os mandados de prisão, parlamentares passaram a trocar mensagens de Whatsapp e telefonemas, preocupados com a extensão dos danos e a forma como o partido será atingido.
Em São Paulo desde a noite de quinta-feira, o vice Michel Temer, que está no exercício da Presidência da República por conta de viagem da presidente Dilma Rousseff à Austrália para reunião do G-20, passou o dia de ontem, em conversas, por telefone, com políticos do partido. A avaliação geral entre os peemedebistas é que a situação deverá se agravar nos próximos dias, porque os empresários que foram presos deverão colaborar com as investigações por pressão das empreiteiras e dos familiares, não tendo mais motivos para represar informações que envolvam os políticos.
Ninguém no PMDB esperava pela deflagração da operação na sexta. Dirigentes compararam a atuação da PF a um furacão, afirmando que as consequências são “imprevisíveis”. Os caciques do PMDB adotaram o discurso de que as investigações ganharam “pernas próprias” e que, neste momento, o maior prejudicado é o PT, com a prisão de Duque, indicado para uma diretoria da Petrobras pelo ex-ministro José Dirceu, segundo Paulo Roberto Costa, um dos delatores do esquema. No entanto, integrantes do PMDB avaliam que a situação não é confortável para ninguém e que há medo generalizado com o que virá pela frente nas próximas semanas.
Como as empreiteiras envolvidas doaram para as campanhas eleitorais, o problema maior, segundo integrantes da cúpula do partido, é de quem recebeu dinheiro “por fora” e, o pior, de quem está envolvido no recebimento de propina por participar de esquemas na Petrobras. O escândalo também acaba afetando as eleições para as presidências da Câmara dos Deputados e do Senado, já que o líder do PMDB, Eduardo Cunha (RJ), é candidato ao comando da Casa a contragosto do Planalto, e já avisou que sua candidatura é “irremovível”. No Senado, mesmo sem se apresentar como candidato, Renan Calheiros (PMDB-AL) trabalha para permanecer na presidência. É o não candidato mais candidato ao posto, segundo seus aliados.
Como Fernando Soares, o Baiano, está foragido e é apontado como “operador do PMDB” na Petrobras, a cúpula do partido avalia que setores do PT usarão este fato para atingir as candidaturas e impedir que o partido reedite, no biênio 2015-2016, o comando das duas Casas, hoje com Calheiros e o deputado Henrique Eduardo Alves (RN).
Disputa por cargos pode ser afetada
O eventual envolvimento de políticos do PMDB no esquema de recebimento de propina para intermediar obras das grandes empreiteiras com a Petrobras pode atrapalhar as negociações da reforma ministerial. Questionado sobre as investigações, o líder da sigla na Câmara, candidato à presidência da Casa, Eduardo Cunha, disse que não há preocupação com a nova fase da Operação Lava Jato.
Cunha não mencionou Fernando Soares, o Baiano, que seria o operador do PMDB para as propinas da Petrobras, segundo depoimento de delatores do esquema. “O PMDB não tem operador. Se alguém fez qualquer coisa, o fez em caráter individual, e responderá por isso. Não existe operador do PMDB.” O discurso de todos é que o partido não tem ligações com Baiano.
O escândalo acaba trazendo à tona outro problema no partido: a divisão entre as bancadas da Câmara e do Senado. Deputados lembram que a bancada da Câmara sempre foi mais beligerante com o governo e que nos anos que as investigações da Polícia Federal abrangem, essa ala do partido era nitidamente de oposição e ainda resistia a se aliar ao governo Lula. Ou seja, ficava à margem de eventuais negócios obscuros. Neste grupo, está Temer, que era presidente da Câmara na época. Deputados costumam dizer que a influência na Petrobras é maior por parte da cúpula do PMDB do Senado, como o presidente da Casa, Renan Calheiros (AL), e os senadores José Sarney (AP) e Edison Lobão (MA).
Clima de apreensão toma conta do PMDB
Repercussões da Operação Lava Jato são esperadas nos próximos dias