Política

Conta de luz da Câmara equivale ao consumo de 18 mil famílias

Análise do orçamento também mostra gastos em água, passagens aéreas e munição para armas de fogo

A torneira por onde escorrem os R$ 665 milhões que pagam salários, verba indenizatória, passagens aéreas, moradia e assessores para os deputados parece estar sempre aberta, quando se vê para onde vão os R$ 2,5 bilhões restantes do orçamento anual da Câmara. Com recursos equivalentes ao que a prefeitura de uma grande capital como Salvador (BA) tem para aplicar em educação, saúde e transportes, a Câmara gasta só em energia elétrica o suficiente para pagar a conta de luz de aproximadamente 18 mil famílias durante um ano. A Câmara tem 17 mil funcionários, que ocupam uma área de 135 mil metros quadrados.

De acordo com o levantamento feito pelo gabinete do deputado Alfredo Kaefer (PSDB-PR), ao qual o R7 teve acesso, são gastos por ano R$ 9 milhões em luz e R$ 3,3 milhões em água - recursos que vêm do Orçamento da União, ou seja, do bolso dos contribuintes. A despesa com auxílio-alimentação também assusta. São R$ 115 milhões por ano, recursos que pagariam Bolsa-Família para todos os beneficiários cadastrados no Estado do Espírito Santo em 2009.

Além dos milionários gastos com alimentação, outra despesa da Câmara também surpreende: munição, para uma Casa onde se ouve mais xingamentos do que tiros. Apesar de a maioria dos 200 homens que compõem a Polícia Legislativa usar armas não letais, a Câmara gasta R$ 52 mil por ano para comprar munição. O recurso é o suficiente para comprar 13.750 balas, 70 por ano para cada policial. A assessoria da Câmara explica que a munição é adquirida para treinamento dos homens.

A sede do trabalho é Brasília, mas as ações fora do Distrito Federal parecem se multiplicar. Só de diárias a Câmara paga R$ 1,3 milhão, R$ 736 mil para viagens nacionais e R$ 598 mil para assuntos discutidos fora do país. Na lista estão deputados e servidores em missão oficial. A folha de pagamento de assessores comissionados e funcionários concursados ocupa 48% dos R$ 3,2 bilhões do orçamento. Somente os estagiários custam à Casa a bagatela de R$ 2 milhões em salários.

Somado aos rendimentos, dependendo da função, os funcionários recebem adicional de insalubridade, periculosidade e noturno. De acordo com a assessoria, ganham insalubridade pessoas que trabalham na biblioteca fazendo reparos em livros, eletricistas, gráficos e o pessoal da área médica da casa. O adicional periculosidade custa R$ 1,5 milhão por ano à população brasileira.

O deputado Alfredo Kaefer, autor do levantamento, afirma que existem exageros nos gastos da Câmara. Segundo o deputado, apesar de o foco da fiscalização ser sempre os parlamentares, é preciso analisar os gastos com manutenção da Casa, pois os deputados custam apenas 20% do orçamento total.

- É preciso economizar. Tem muito gasto que parece exagerado em uma primeira análise. A Câmara gasta muito em custeio, pessoal, manutenção e transporte. Todo problema está em nosso gasto de custeio.

Além dos altos recursos aplicados na folha de pagamento e despesas do dia a dia, os contratos com prestadoras de serviço também chamam a atenção. Vinte empresas dividem R$ 190 milhões em contratos. Apenas uma agência de viagens, responsável pela emissão de passagem para os parlamentares, recebe R$ 2,4 milhões. Com serviços de copa, limpeza e contração de pessoal para as recepções são gastos R$ 49 milhões.

Fabiano Angélico, o coordenador de projetos da ONG Transparência Brasil, especializada em fiscalização de gastos públicos, afirma que a Câmara tem investido na divulgação dos gastos dos parlamentares, mas o destino dos recursos utilizados para as despesas da Casa ainda é de difícil acesso.

- É uma parte que precisa ser melhorada. Os dados sobre a atividade legislativa individual são bons. Seria importante avançar na transparência de dados mais gerais, dados agregados.