Política

Deputados federais deixam espólio de quase um milhão de votos para 2026

Opção dos três parlamentares mais votados do RS por concorrer ao governo ou ao Senado desencadeia corrida para herdar seus eleitores

Prédio do Congresso Nacional, em Brasília
Prédio do Congresso Nacional, em Brasília Foto : Antônio Cruz/Agência Brasil/CP

A praticamente nove meses das eleições gerais de 2026, são as articulações para a formação das chapas majoritárias, com suas candidaturas ao governo do Estado e ao Senado, que publicamente dominam os debates no RS. Mas a definição antecipada destes nomes estabeleceu um efeito direto sobre a disputa para a Câmara Federal, que integra as chamadas chapas proporcionais, e a formação das nominatas de deputados federais vêm sendo alvo de intensas articulações dentro dos partidos.

O objetivo é conquistar o maior número possível dos eleitores que, em 2022, escolheram para deputado federal um candidato que fez muitos votos, mas que agora não vai mais concorrer à Câmara. E, como admitem dirigentes de diferentes siglas, “é voto que não acaba mais.” Eles estão de olho em um espólio que chega, no RS, a quase um milhão de votos. Ou, mais precisamente, 935.362.

O número representa a soma dos escores obtidos em 2022 pelos hoje deputados federais Luciano Zucco (PL), Marcel van Hattem (Novo), Paulo Pimenta (PT), Márcio Biolchi (MDB) e Ubiratan Sanderson (PL). Zucco, van Hattem e Pimenta são, nesta ordem, os três federais mais votados do RS nas últimas eleições gerais, e os únicos que ultrapassaram a barreira dos 200 mil eleitores. Zucco, em primeiro lugar, totalizou 259.023 votos. Van Hattem veio logo atrás, com 256.913. Pimenta marcou 223.109. Em 2026, os três deixarão a disputa para a Câmara. Zucco é pré-candidato ao governo. Van Hattem e Pimenta, ao Senado.

Mesmo que com votações mais modestas, Biolchi e Sanderson também têm um espólio em disputa. O emedebista, que somou 99.627 votos em 2022, anunciou que não concorrerá à reeleição. E o PL garante que Sanderson, com a pré-candidatura já lançada, disputará o Senado. Estreante no último pleito, ele obteve então 86.690 votos.

Para conquistar os eleitores que ficarão ‘órfãos’ em suas escolhas para a Câmara Federal, os partidos adotam estratégias profissionais, e já possuem herdeiros definidos, planilhas com históricos e características de potenciais substitutos, mapas por regiões e projeções sobre o número total de cadeiras a ser conquistado e os votos nas legendas.

As estratégias dentro dos partidos

No PL, partido de Luciano Zucco e Ubiratan Sanderson, o trabalho é para manter entre candidatos à Câmara Federal da agremiação os 345.713 votos obtidos pelos dois em 2022, e avançar sobre os 256.913 eleitores de Marcel van Hattem, do Novo. O Novo já lançou a pré-candidatura do hoje estadual Felipe Camozzato à Câmara, com o objetivo de que ele herde os votos do companheiro de legenda para federal, e prepara outros nomes.

Mas os articuladores do PL projetam que a identificação ideológica entre as duas siglas, o fato de van Hattem compor a majoritária junto com Zucco e Sanderson e a diferença considerável na estrutura das duas legendas no Estado, onde o PL está organizado em 400 dos 497 municípios, além de uma nominata que vai mesclar nomes consolidados a outros com inserção significativa nas redes sociais, dão vantagem à legenda maior.

“Nossa avaliação é de que os votos vão permanecer ou vir para o nosso partido, porque damos ao eleitor a certeza de que está votando em uma sigla que ele lembra e identifica como de direita. Temos pesquisas nacionais que apontam que os eleitores lembram mesmo de dois partidos hoje: o PL e o PT. Além disso, deputados federais não precisam ‘sair da bolha’”, elenca o presidente estadual do PL, o deputado federal Giovani Cherini. Pré-candidato à reeleição e quinto mais votado para a Câmara Federal em 2022, com 162.036 votos, o dirigente é apontado como um dos mais competitivos para herdar eleitores dos colegas que migraram para a majoritária.

No PT, a disputa pelos votos de Paulo Pimenta chegou a gerar atritos internos logo que o nome do deputado foi confirmado para o Senado. E ele precisou vir a público para afirmar que seu herdeiro prioritário é o presidente do diretório gaúcho e deputado estadual Valdeci Oliveira. O dirigente é um dos mais próximos do parlamentar e a ideia é que seja direcionada a ele a maior parte do espólio deixado por Pimenta em diferentes regiões, a começar pela Central, já que a base eleitoral de ambos é a cidade de Santa Maria.

A ‘preferência’, contudo, não impede que outros nomes ao centro e à esquerda, dentro e fora da agremiação, trabalhem para ficar com os eleitores do ex-ministro. Entre eles, no PT, os colegas de Câmara Maria do Rosário e Elvino Bohn Gass, a estadual Laura Sito, que, assim como Valdeci, integra seu grupo interno, e o ex-prefeito de São Leopoldo, Ary Vanazzi. O espaço deixado pelo parlamentar é cobiçado ainda por PSol, PCdoB e até PSB e PDT. Foi do PSol, com Fernanda Melchionna, a quarta maior votação do RS para a Câmara em 2022. Ao contabilizar 199.894 votos, faltou a ela muito pouco para alcançar também os 200 mil eleitores.

“O Pimenta tem um número expressivo de votos, que não se concentra em uma ou duas partes do Estado. Ele apresenta desempenho importante em regiões diversas, entre elas Centro/Serra, Campanha, Missões e Metropolitana. Isto nos permite trabalhar múltiplas candidaturas e, ao mesmo tempo, destacar a importância da legenda”, resume o presidente do PT gaúcho.

Enquanto PT e PL pretendem investir na tese do alinhamento ideológico para ficar com os votos de seus parlamentares que vão concorrer ao governo e ao Senado, outras grandes legendas, como PP e MDB, vão trabalhar em uma lógica diferente. A de apostar na infidelidade que existe por parte dos eleitores em relação as escolhas para o Legislativo.

“O Zucco, o van Hattem e o Pimenta têm uma característica em comum: votações consideráveis na região Metropolitana e em grandes centros. Por isto, vamos apresentar uma nominata que reúna tanto candidatos de posicionamento ideológico bem marcado, como lideranças regionais. Porque uma parte do voto para deputado federal é regional, e ultrapassa o espectro político”, garante o presidente estadual do PP, o também deputado federal Covatti Filho. Ele assinala que, no pleito passado, faltaram 20 mil votos para seu partido fazer a quarta cadeira na Câmara dos Deputados. “É evidente que vamos atrás deste quase um milhão de eleitores”, adianta.