Dilma também aproveitou a conversa com jornalistas para distinguir a situação de confinamento do senador na embaixada brasileira em La Paz da realidade de presos políticos no Brasil durante a ditadura militar. "Não há nenhuma similaridade. E eu estive no DOI-Codi. Eu sei o que é o DOI-Codi. E asseguro a vocês: é tão distante o DOI-Codi da embaixada brasileira lá em La Paz, como é distante o céu do inferno. Literalmente, isso", disse Dilma, irritada, questionando um dos principais argumentos usados pelo encarregado de negócios do Brasil em La Paz, Eduardo Saboia.
A presidente afirmou que o Brasil "jamais" poderia aceitar em momento algum sem salvo-conduto do governo da Bolívia trazer Molina para o Brasil. "Não poderia colocar em risco a vida de uma pessoa que estava sob sua guarda", disse. Dilma reagiu ainda dizendo que a embaixada brasileira em La Paz é "extremamente confortável" e ressaltou que o governo brasileiro tentou negociar em "vários momentos" o salvo-conduto de Molina. "E não conseguimos", observou.
Dilma lamentou que se tenha colocado em risco a vida do senador boliviano opositor. "Lamento profundamente que um asilado brasileiro tenha sido submetido à insegurança que esse foi. Porque um Estado democrático e civilizado, a primeira coisa que faz é proteger a vida, sem qualquer outra consideração. Protegemos a vida, a segurança, e garantimos o conforto ao asilado", ponderou a presidente. "Se nada aconteceu (com o senador na "fuga") não é a questão, poderia ter acontecido", declarou a presidente, acrescentando: "Um governo não negocia vidas, um governo age para proteger a vida. Não estamos em situação de exceção."
Amorim vai esclarecer hoje questão de fuzileiros
Dilma disse ainda que o ministro da Defesa, Celso Amorim, prestará esclarecimentos ainda hoje sobre a fuga do senador boliviano. O caso gerou uma crise diplomática entre o Brasil e Bolívia, além de provocar a queda de Antonio Patriota do Ministério das Relações Exteriores.
Dois fuzileiros navais fizeram a escolta dos carros oficiais da embaixada usados no deslocamento do senador boliviano até a fronteira com o Brasil. Dilma evitou responder se Amorim seria responsabilizado da mesma forma que Patriota, pelo fato de a cadeia de comando das Forças Armadas ter conhecimento do plano de fuga de Molina e supostamente não ter repassado a informação a Amorim. "O ministro Celso Amorim vai esclarecer hoje, ao longo do dia, devidamente, a questão que envolveu os dois fuzileiros navais", afirmou a presidente, após participar de cerimônia no Congresso Nacional.
A queda de Patriota tornou-se inevitável após a irritação no Palácio do Planalto com a fuga do senador boliviano de oposição a Evo Morales, organizada pelo encarregado de negócios do Brasil em La Paz, Eduardo Saboia. Diante do que qualificou de "gravíssimo episódio", Dilma Rousseff decidiu imediatamente afastar o chanceler, tentando demonstrar ao próprio Evo Morales sua indignação com o ocorrido.
Dilma já havia conversado com Patriota e determinado que cancelasse a sua viagem à Finlândia e permanecesse no Brasil para resolver o caso. A presidente estava "inconformada" com a situação e queria saber exatamente quem estava a par da ação idealizada por Saboia.
Entrevista cancelada
A entrevista do senador boliviano Roger Pinto Molina prevista para as 15h desta terça na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) do Senado foi cancelada. A suspensão ocorreu a pedido do advogado Fernando Tibúrcio Peña, que está realizando a defesa de Pinto Molina.
O advogado conversou com o presidente da CRE, senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES), e argumentou que seria melhor cancelar a audiência devido aos "últimos desdobramentos", ou seja, devido à queda de Antonio Patriota do comando do Ministério das Relações Exteriores (MRE). O cancelamento foi confirmado pela equipe de Ferraço. Não foi marcada nova data para a audiência.
Pinto Molina chegou ao Brasil no último sábado. Ele estava na missão diplomática do Brasil em La Paz desde maio de 2012, onde tinha obtido asilo, mas a Bolívia se recusava a conceder autorização para que o senador viajasse. Na sexta-feira, foi retirado da embaixada em um veículo diplomático, escoltado por militares brasileiros, e chegou a Corumbá (MS) no sábado após 22 horas de viagem.
Segundo relato do presidente da CRE, o parlamentar boliviano viajou em uma comitiva de dois carros com placas consulares, acompanhado do encarregado de negócios da embaixada brasileira em La Paz, Eduardo Sabóia. Desgastado com a fuga do senador boliviano, o chanceler Antonio Patriota perdeu o cargo na noite dessa segunda-feira.
A queda foi desencadeada pela operação para liberar Pinto Molina da Embaixada do Brasil em La Paz. Para a presidente Dilma Rousseff, foi um "gravíssimo episódio". Ela, inclusive, já escolheu o novo titular do MRE: será Luiz Alberto Figueiredo, que até agora ocupava o cargo de embaixador do Brasil nas Nações Unidas (ONU).