O executivo da Toyo Setal, Julio Camargo, um dos delatores da Operação Lava Jato, afirmou em novo depoimento prestado no dia 8 de abril que o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu interveio pela contratação da empresa junto ao ex-presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli. O depoimento faz parte do material encaminhado pela Polícia Federal nesta terça-feira, 21, ao Supremo Tribunal Federal relativo aos inquéritos que apuram envolvimento de políticos no esquema de corrupção e propina na estatal.
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Camargo disse à PF que conheceu o petista em uma festa de aniversário do ex-ministro, quando ele já tinha deixado a Casa Civil do governo Lula. O convite foi feito por um amigo em comum. Os dois tiveram mais de 20 encontros, segundo os relatos de Camargo, a maioria no escritório ou na residência de Dirceu.
No novo depoimento, Camargo afirma que tinha meios de dar suporte financeiro à Petrobras, mas, em contrapartida, a estatal deveria celebrar contrato com um consórcio do qual a Toyo fazia parte. Diante da sinalização de mudança da Petrobras desse modelo de negócio, o executivo teria buscado ajuda de Dirceu. O ex-ministro disse, segundo o relato de Camargo, "ter feito gestão junto a Gabrielli no sentido de entender por qual razão a Petrobrás havia mudado a sistemática".
Ele declara que doou valores ao PT, mas destaca que nunca ofereceu vantagens "devidas ou indevidas" a Dirceu. Apesar disso, Camargo diz ter autorizado viagens de Dirceu em seu avião em "várias oportunidades", mas não se lembra de o petista ter feito menção a ninguém da Petrobrás nas viagens.
Venezuela
Dirceu e o executivo da Toyo também conversaram sobre a Venezuela, segundo o delator. A Toyo enfrentava problemas na execução de contratos no país e Dirceu teria sinalizado que "conseguiria uma entrada" de Camargo com o presidente da PDVSA, estatal venezuelana responsável pela exploração de petróleo. O executivo não teve autorização da Toyo para continuar com a negociação.
O executivo da Toyo relata ainda ter se encontrado com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), também investigado no âmbito da Lava Jato, em duas ocasiões. Os dois trataram de questões do setor portuário. Na época, estava em tramitação no Congresso a medida provisória conhecida como MP dos portos, que regulamentou o setor. Cunha teria perguntado a Camargo se haveria disponibilidade de a Toyo, por meio de um banco japonês, conseguir financiamento para projetos em portos.
O peemedebista teria prometido "fazer gestões" para a contratação da Toyo, caso o financiamento fosse obtido. As conversas cessaram depois que Camargo afirmou que não conseguiria obter o financiamento.
Cunha disse à reportagem ter sido procurado por diversas pessoas na época e uma delas poderia ter sido Camargo. Ele afirmou que o executivo queria investir e a nova legislação previa investimentos privados em áreas externas dos portos.
Para defesa de ex-ministro, não há 'ilicitude' no caso
O advogado de José Dirceu, Roberto Podval, afirmou que o depoimento de Julio Camargo aponta que nenhum negócio foi firmado e disse "não ver ilicitude" no caso de qualquer contratado ter sido fechado, uma vez que Dirceu não estava mais no governo e possui empresa de consultoria.
"Não lembro de nenhuma discussão geral sobre modelo de contratação da Toyo e é muito difícil lembrar, sem maiores detalhes, especialmente sem relacionar qual projeto esta questão poderia estar associada. Quanto a conversas deste teor com José Dirceu tenho certeza que nunca tive", afirmou o ex-presidente da Petrobrás José Sergio Gabrielli.
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