Política

Dirceu tentou interceder por negócio na Petrobras, diz delator da Lava Jato

Advogado do ex-político não vê ilicitude no caso de contratos fechados

Advogado de José Dirceu, Roberto Podval, vê com normalidade, já que cliente tinha uma consultoria
Advogado de José Dirceu, Roberto Podval, vê com normalidade, já que cliente tinha uma consultoria Foto : Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil / CP
O executivo da Toyo Setal, Julio Camargo, um dos delatores da Operação Lava Jato, afirmou em novo depoimento prestado no dia 8 de abril que o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu interveio pela contratação da empresa junto ao ex-presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli. O depoimento faz parte do material encaminhado pela Polícia Federal nesta terça-feira, 21, ao Supremo Tribunal Federal relativo aos inquéritos que apuram envolvimento de políticos no esquema de corrupção e propina na estatal.

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Camargo disse à PF que conheceu o petista em uma festa de aniversário do ex-ministro, quando ele já tinha deixado a Casa Civil do governo Lula. O convite foi feito por um amigo em comum. Os dois tiveram mais de 20 encontros, segundo os relatos de Camargo, a maioria no escritório ou na residência de Dirceu.

No novo depoimento, Camargo afirma que tinha meios de dar suporte financeiro à Petrobras, mas, em contrapartida, a estatal deveria celebrar contrato com um consórcio do qual a Toyo fazia parte. Diante da sinalização de mudança da Petrobras desse modelo de negócio, o executivo teria buscado ajuda de Dirceu. O ex-ministro disse, segundo o relato de Camargo, "ter feito gestão junto a Gabrielli no sentido de entender por qual razão a Petrobrás havia mudado a sistemática".

Ele declara que doou valores ao PT, mas destaca que nunca ofereceu vantagens "devidas ou indevidas" a Dirceu. Apesar disso, Camargo diz ter autorizado viagens de Dirceu em seu avião em "várias oportunidades", mas não se lembra de o petista ter feito menção a ninguém da Petrobrás nas viagens.

Venezuela

Dirceu e o executivo da Toyo também conversaram sobre a Venezuela, segundo o delator. A Toyo enfrentava problemas na execução de contratos no país e Dirceu teria sinalizado que "conseguiria uma entrada" de Camargo com o presidente da PDVSA, estatal venezuelana responsável pela exploração de petróleo. O executivo não teve autorização da Toyo para continuar com a negociação.

O executivo da Toyo relata ainda ter se encontrado com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), também investigado no âmbito da Lava Jato, em duas ocasiões. Os dois trataram de questões do setor portuário. Na época, estava em tramitação no Congresso a medida provisória conhecida como MP dos portos, que regulamentou o setor. Cunha teria perguntado a Camargo se haveria disponibilidade de a Toyo, por meio de um banco japonês, conseguir financiamento para projetos em portos.

O peemedebista teria prometido "fazer gestões" para a contratação da Toyo, caso o financiamento fosse obtido. As conversas cessaram depois que Camargo afirmou que não conseguiria obter o financiamento.

Cunha disse à reportagem ter sido procurado por diversas pessoas na época e uma delas poderia ter sido Camargo. Ele afirmou que o executivo queria investir e a nova legislação previa investimentos privados em áreas externas dos portos.

Para defesa de ex-ministro, não há 'ilicitude' no caso


O advogado de José Dirceu, Roberto Podval, afirmou que o depoimento de Julio Camargo aponta que nenhum negócio foi firmado e disse "não ver ilicitude" no caso de qualquer contratado ter sido fechado, uma vez que Dirceu não estava mais no governo e possui empresa de consultoria.

"Não lembro de nenhuma discussão geral sobre modelo de contratação da Toyo e é muito difícil lembrar, sem maiores detalhes, especialmente sem relacionar qual projeto esta questão poderia estar associada. Quanto a conversas deste teor com José Dirceu tenho certeza que nunca tive", afirmou o ex-presidente da Petrobrás José Sergio Gabrielli.