Política

Efeito da reforma tributária pode variar nos municípios do Rio Grande do Sul

Cidades como Erechim devem ser beneficiadas, enquanto municípios da Região Metropolitana, como Canoas, podem perder arrecadação

Presidente da Famurs, Marcelo Arruda abriu os trabalhos do congresso
Presidente da Famurs, Marcelo Arruda abriu os trabalhos do congresso

Em seu primeiro dia de debates, em Erechim, o 43º Congresso de Municípios do Rio Grande do Sul trouxe à pauta um dos temas mais decisivos da gestão pública no momento: a reforma tributária. Seus complexos efeitos passarão a ser sentidos na prática a partir de 2026, quando se inicia a transição para uma nova forma de recolher impostos.

A temática foi debatida em uma palestra no evento promovido pela Federação das Associações de Municípios do RS (Famurs). “O evento vem tratar de temas importantes: reforma tributária, questões ambientais, legislação ligada à parte da irrigação. Os prefeitos, de forma geral, têm dificuldade enorme de entender essas informações, pois está mudando muito rapidamente e precisamos acompanhar. A Famurs está interiorizando isso. É muito importante. São mais de 300 prefeitos gaúchos reunidos para conversas de nível nacional que impactam a vida dos municípios”, relatou o prefeito do município anfitrião, Paulo Polis (MDB).

O gerente técnico de Finanças e Tributação da Confederação Nacional de Municípios (CNM), Alex Carneiro, apresentou de forma didática os principais pontos da reforma, que substitui cinco tributos (PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS) por dois: a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), de competência federal, e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), com gestão compartilhada entre estados e municípios. A transição completa para o novo modelo se estenderá até 2033, com um cronograma de substituição gradual do ICMS e ISS pelo IBS.

A partir de 2026, o novo sistema será testado com alíquotas simbólicas e só em 2029 os tributos antigos começam a ser extintos progressivamente. “Durante essa fase, os municípios receberão uma média ponderada entre sua arrecadação atual e a nova participação baseada em população e destino do consumo”, explicou Carneiro.

Esse ponto é crucial: municípios como Erechim devem ser beneficiados (com projeção de crescimento de +35,2%), enquanto grandes centros, como Canoas, podem enfrentar perdas (estimadas em -33,5%).

“Temos uma diversidade forte na nossa matriz econômica. Somos cidade polo de 32 municípios. A tendência de crescimento econômico e demográfico é boa, isso é fundamental nesta reforma. O restante vai ter uma dificuldade. É complexo, esse tema é recente e já começa a mudar a partir do próximo ano. Estamos nos preparando, mas não é simples”, ressaltou Polis, prefeito de Erechim.

Irrigação é um dos destaques nos debates

Outro tema tratado no segundo dia do congresso de municípios foi a irrigação como forma de combater as recorrentes estiagens no RS. O subsecretário de Irrigação da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), Paulinho Salerno (MDB), ex-presidente da Famurs, palestrou sobre o planejamento do programa Irriga+RS.

A meta é ambiciosa: alcançar 100 mil hectares irrigados até 2027, com incentivo à construção de reservatórios e ampliação das áreas irrigadas. O programa oferece subsídios de até 20% do valor do projeto, com teto de R$ 100 mil por produtor, e o novo edital do programa está aberto até 29 de julho. Atualmente, apenas 6% da área agrícola gaúcha é irrigada, embora represente cerca de 20% da área irrigada do país.

Dados apresentados por Santos apontam que 18% da área rural do Estado tem potencial para irrigação, sendo 5% com altíssima aptidão. Ele destacou ainda que efeitos do clima, tanto da estiagem quanto do excesso de chuvas nas últimas safras, causaram queda de 41% na produção de grãos no Estado.

O secretário-adjunto do Meio Ambiente e Infraestrutura, Marcelo Camardelli Rosa, tratou da irrigação como uma peça-chave na adaptação climática da agricultura. Ele relacionou os efeitos da estiagem com a queda de 45,6% no Produto Interno Bruto (PIB) agropecuário do Estado em 2022, impulsionada pela quebra das safras de soja, milho, fumo e arroz.

O Congresso se encerra hoje, em dia que deve ter a presença do governador Eduardo Leite (PSDB), do vice Gabriel Souza (MDB) e de outras lideranças. Em sua fala, o presidente da Famurs, Marcelo Arruda (PRD), destacou que o evento tem o objetivo de trabalhar temas que irão impactar o futuro dos municípios gaúchos, além de proporcionar aos gestores um momento de troca e interação.

“Muitas vezes a gente acha que o problema no nosso município é o pior, mas conversando com um colega, vemos que ele tem um problema semelhante, só muda o endereço e o tamanho. Mas quando a gente se une e busca os bons exemplos, a gente consegue fazer a transformação na nossa cidade.”