Pesquisas eleitorais têm mostrado que o número de indecisos em relação às eleições de outubro é elevado. Na Genial/Quaest sobre a corrida ao Palácio Piratini no primeiro turno mais recente (RS-04790/2026), por exemplo, que fez 1.104 entrevistas entre os dias 24 e 28 de julho, 31% dos eleitores não sabem em quem votar. A margem de erro é de três pontos percentuais e o nível de confiança do levantamento contratado pelo Banco Genial é de 95%.
Já a pesquisa Veritá (RS-02458/2026) mostra que 34,3% dos eleitores estão indecisos em relação ao primeiro voto para o Senado, e 37,9% para o segundo. Foram ouvidos 2.020 eleitores entre os dias 7 e 11 de julho. A pesquisa, que foi uma iniciativa própria do instituto, tem uma margem de erro de 2,5 pontos percentuais, para mais ou para menos, com índice de confiança de 95%.
A estatística e professora Juliane Silveira Freire da Silva explicou que a pesquisa eleitoral é um estudo amostral que busca retratar como está distribuída a intenção de voto do eleitorado no momento em que as entrevistas são realizadas. “A entidade ou empresa responsável pela realização precisa registrar a pesquisa no sistema PesqEle do TSE, com antecedência mínima de cinco dias da divulgação dos resultados. Nesse registro constam informações como quem contratou a pesquisa, a metodologia utilizada, o plano amostral, o tamanho da amostra, a margem de erro, o nível de confiança, o período de coleta e os critérios de seleção dos entrevistados”, apontou Juliane.
Coleta
Conforme Juliane, a coleta é realizada com uma amostra da população-alvo, ou seja, entrevista-se apenas uma parcela de eleitores. “A legislação exige que o registro informe o plano amostral e a ponderação quanto a gênero, idade, grau de instrução, nível econômico e área física, além da fonte pública utilizada.” Juliane explicou que, após a coleta, os dados passam por procedimentos de conferência e consistência antes da divulgação. “Quando realizada próxima ao dia da eleição, a pesquisa pode apresentar resultados semelhantes aos posteriormente observados nas urnas. Ainda assim, seu objetivo é retratar o cenário existente durante o período da coleta.” Essas informações ficam disponíveis para consulta pública no sistema do TSE.
Afinidade ideológica e atalhos cognitivos
Doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Fábio Hoffmann explica que a campanha eleitoral, por si só, tem pouco impacto nas escolhas do eleitor. A decisão do voto, muitas vezes, está embutida no comportamento e na visão de mundo de um partido ou candidato. “Quando há uma afinidade ideológica, então há grandes chances de aquele eleitor votar em determinado candidato.”
Hoffmann aponta que a atenção do eleitor mediano para com a política e as eleições é mínima, e só vai aumentar de forma significativa nas duas últimas semanas. “Uma parte considerável nem sabe em quem vai votar para os cargos menos importantes do pleito, e é por isso que a cultura do derrame de santinhos no dia da eleição ainda é persistente na nossa cultura eleitoral.”
O cientista político Benedito Tadeu César acrescenta que a definição do voto é um processo variável, condicionado ao nível de engajamento e ao interesse do eleitor pelas questões políticas. “Indivíduos com maior inclinação política tendem a consolidar suas escolhas mais precocemente, ao se alinharem a ideologias ou a posições programáticas, especialmente em pleitos majoritários.”
“Por outro lado, eleitores com menor engajamento costumam decidir seu voto apenas na semana da eleição, frequentemente optando pela exclusão: escolhem o candidato que consideram ser o ‘menos ruim’ ou rejeitam aquele que mais lhes desagrada”, diz Benedito.
Segundo Hoffmann, pessoas em quem confiamos também são atalhos cognitivos. “Se eu vejo em fulano uma pessoa que compartilha minha visão de mundo e ele vota no candidato B, então igualmente grandes são as chances de ele ser o meu candidato também.” Ele salienta que a família era considerada um grupo de referência para a decisão do voto, mas com a ascensão das redes sociais e dos influenciadores digitais, acabou perdendo espaço. “A eleição de 2018 trouxe isso como aprendizado, quando as famílias se dividiram com a polarização existente e deixaram de ser um norte.”
Polarização nacional se repete nos Estados
Hoffmann destacou que vivemos em uma sociedade não mais analógica, mas em rede, em que a velocidade da informação é instantânea, o que traz grande impacto sobre a opinião dos eleitores. “Por exemplo, nas eleições de 2018, os grupos de WhatsApp e a viralização de vídeos no YouTube tiveram papéis centrais na consolidação e eleição de Jair Bolsonaro”, recorda. Ele frisa os efeitos práticos que a polarização política traz para a formação do voto do eleitor: “Tivemos em 2018 um aumento significativo na polarização, que teve seu auge nas eleições de 2022 e manteve o país dividido durante o pleito.” Segundo Hoffmann, quando há polarização, os eleitores formam o voto antes mesmo da campanha eleitoral e o papel das campanhas se limita a reforçar o apoio da base e conquistar o nicho existente de indecisos. Esse cenário nacional deve se repetir pelos Estados, como o Rio Grande do Sul.
