O eleitorado brasileiro no início da vida adulta, dos 21 aos 34 anos, reduziu desde a última eleição presidencial. A população votante nessa faixa correspondia a 43,8 milhões em 2022, reduzindo para cerca de 41 milhões em 2026. Aliado à redução, o momento de polarização e o uso diário de redes sociais pode gerar um afastamento dos jovens dos debates políticos. Analisando esses comportamentos, a pesquisadora e escritora Catharina Vale desenvolveu um estudo e construiu o conceito de “Curadoria do Eu”, pautando o comportamento dos jovens como “curadores” das próprias bolhas de informação.
A pesquisa será lançada em formato de livro, com o nome de “Curadoria do eu: quem está selecionando quem?”, com previsão de lançamento em setembro, pela editora Gog Ideias. O estudo foi qualitativo e ouviu 24 brasileiros de grandes cidades, entre 21 e 34 anos, em entrevistas aprofundadas sobre política, polarização e redes sociais.
As respostas auxiliaram a construir uma percepção das mudanças comportamentais desde as Jornadas de Junho de 2013 e ao longo das eleições seguintes, o que indicou a formação de um mecanismo de proteção individual para sobreviver ao desgaste emocional do ambiente on-line.
“Percebi que os jovens citaram os termos ‘fazer curadoria’ ou que o ‘algoritmo fazia a curadoria’ e em contextos que sugeriram a necessidade de proteção em selecionar e fazer chegar a si o que lhe interessa e não causa mal”, comentou a escritora.
Os comentários reforçaram a ideia de que os jovens acham os conflitos sobre política, ainda muito comuns nas redes sociais, algo cansativo, e que eles buscam conteúdos que não despertam a sensação de desgaste, medo ou ansiedade.
As respostas também desmistificam a ideia de que a juventude é apática à política. ”Os dados mostram jovens altamente interessados em temas como economia, direitos humanos e saúde, mas com uma profunda rejeição à política partidária tradicional. Eles gostam de política, seus temas e pautas, mas não de partidos. O medo do 'cancelamento' e do julgamento público nas redes sociais os afasta do engajamento coletivo", acrescentou.
Falta de regulamentação da IA auxilia no desgaste do jovens com política
A pesquisadora avalia que não há domínio total sobre as peculiaridades de uso da Inteligência Artificial (IA) nas eleições, nem políticas públicas consolidadas para conter o uso indiscriminado como potencializadora de desinformação.
“Poucos previram que as redes sociais teriam o poder de transformação que tiveram pela possibilidade de microssegmentação, algo completamente novo naquela altura. E agora temos que lidar com a IA, que não é da mesma árvore das redes sociais”, comentou Catharina.
Conforme aponta a autora, o modelo de funcionamento das redes sociais, além de gerar um esvaziamento das discussões, acaba beneficiando o comportamento polarizado. “Ainda que essas questões não sejam exclusivas das redes sociais, as plataformas e o uso dos algorítmos possibilitam que a comunicação populista seja usada de forma estratégica por quem a dominar”, reforçou.
Na avaliação de Catharina, estas práticas de seleção empobrecem o debate público e afetam a coletividade e a democracia. “Isso nos isola enquanto indivíduo e a gente vai encontrando massas mais homogêneas. Há menos espaço para debate, menos disposição para discussão e para ser diferente”, afirmou a pesquisadora.
