Em meio a mais um segundo turno acirrado para a presidência da república, não é incomum que muitas pessoas se sintam avessas à ideia de debater e dialogar com quem não compartilha o mesmo espectro político. Em 2025, uma pesquisa do Instituto Ipsos elencou os sentimentos despertados pela polarização na população brasileira, liderados por tristeza (19%), cansaço (17%) e medo (16%).
As conversas sobre política muitas vezes acabam permeadas por questões passionais, onde o outro deixa de ser um companheiro de conversa e vira um “inimigo”. Alguns campos da ciência tentam explicar esses comportamentos e também como fugir desses vícios na hora de conversar sobre o cenário eleitoral.
O neurocientista, pesquisador e escritor Sandro Eduardo pondera sobre as questões que costumam influenciar em um posicionamento político, partindo de uma série de identificações de valores, história de vida, interesses e pertencimento. “Quando alguém atinge esses pontos, o cérebro não processa apenas uma informação contrária. A reação pode assumir um componente de proteção da própria identidade. É aí que a escuta diminui e a conversa facilmente vira confronto”, indicou o especialista.
Entre vários pontos trazidos, o neurocientista reforça a importância de lidar com ceticismo as próprias crenças na hora de debater. “Muitas vezes, cremos que não temos vieses, mas acusamos os outros de serem enviesados. Todos somos influenciados pelas correntes às quais aderimos”, comentou, indicando que essas convicções não podem fazer com que a conversa deixe de parecer um debate saudável, sem uso de xingamentos e ataques pessoais.
Escolha de ambientes
Para o escritor, nem todos locais e grupos são propícios a oferecer um debate saudável. “Em tempos de ultrapolarização, é inteligente identificar ambientes e grupos carregados de motivação militante, onde a divergência foi convertida em hostilidade. Não é uma fuga de opiniões diferentes, mas uma escolha de onde investir a energia emocional e comunicacional”, argumentou Sandro Eduardo.
Ainda que não incentive o debate ser levado ao extremo em contextos familiares e de trabalho, pensando em preservar a qualidade destas relações, o autor pontua também que não é necessário em diálogos improdutivos e hostis. “Se o outro lado não contribuir para uma conversa civilizada e produtiva, escolha saídas admiráveis e simpáticas, sem minimizar suas convicções”, ponderou.
O papel das redes sociais
Para o neurocientista, as redes sociais não criam sozinhas a polarização, mas acaba amplificando os comportamentos, especialmente pelo algoritmo levar o usuário para dentro do ambiente polarizado, priorizando o engajamento e a atenção. “Conteúdos que provocam indignação, choque ou forte identificação tendem a circular mais. Isso ajuda a explicar por que o ambiente digital parece mais radicalizado do que as relações que vivemos fora dele”, comentou.
Para evitar os conflitos e desgastes desnecessários, a dica de Sandro Eduardo é a velocidade de reação, visto que, no ambiente digital, exista a privação de diversos sinais de uma conversa “cara a cara”, como expressão facial, tom de voz, pausas e percepção do desconforto do outro. “Por isso, uma recomendação simples é muito útil: não deixe o digital retirar sua humanidade e sua racionalidade nem criar uma falsa sensação de impunidade”, reforçou o neurocientista.
