Eleições

Políticos gaúchos apostam em estética influencer

Estratégia de expor situações da vida privada, que ganha cada vez mais espaço nas redes, busca conquistar eleitores por meio de conexões emocionais

Pré-candidatos nas eleições do RS mostram cenas de seu cotidiano
Pré-candidatos nas eleições do RS mostram cenas de seu cotidiano Foto : Arte de Leandro Maciel sobre fotos das redes sociais

Com enquadramento close-up, uma mulher comemora, em um vídeo curto, o lançamento de sua plataforma de cadastramento de voluntários. O foco fechado evidencia que ela não está maquiada. E, apesar dele, é possível perceber que veste um pijama e se recosta em almofadas em um ambiente doméstico.

Em outra situação do cotidiano, em meio a um gramado entremeado por árvores, um homem, acompanhado por seu cachorro, mostra o quanto está feliz com o amadurecimento das nozes-pecãs de seu pomar.

Em mais um vídeo, outro homem, trajando moletom, na cozinha de casa, opina sobre a convocação de Neymar para a seleção brasileira nesta Copa do Mundo, enquanto coloca uma chaleira de água para ferver. Outro, ainda, transita entre o closet, o quarto e a sala da própria residência, ao mesmo tempo em que confidencia o que o leva a andar sempre de tênis.

Ao melhor ‘estilo Virgínia Fonseca’, os vídeos estão se multiplicando no Instagram de gaúchos nesta metade de ano, mas não são de contas de influenciadores ou celebridades. Nem de pessoas que produzem conteúdos diversos para a internet, na expectativa de que algum deles viralize.

As gravações, incluindo todas acima, são de contas de políticos do RS pré-candidatos nestas eleições de 2026, a começar por aqueles que integram chapas majoritárias, e traduzem uma tentativa óbvia de criar conexão com eleitores que estejam além daqueles já alinhados ideologicamente. Ora somente com falas diretas para a câmera, ora embalados por trilhas sonoras engraçadas ou emocionantes, a depender do momento, há pré-candidatos lavando louça, puxando pesos na academia, passando café, assando churrasco, rezando, dividindo docinhos e até tentando dançar break, em uma infinidade de momentos do dia a dia. E há, também, vídeos sobre propostas políticas e bandeiras de campanha.

O professor Camilo Aggio, da UFMG, e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD), assinala que a estratégia de comunicação que humaniza candidatos, de forma a mostrá-los ‘gente como a gente’, não é novidade na política. Conhecida entre marqueteiros e estrategistas de campanhas como ‘lifestyle’, ela, de modo geral, consiste em expor bastidores da vida pessoal com o objetivo de gerar empatia, engajamento e conexões emocionais com os eleitores.

“A tentativa de humanização é tão antiga quanto a política. Se falarmos do impacto da tecnologia, nas eleições brasileiras, lá em 2010, por exemplo, já havia um enorme esforço para tornar o José Serra mais palatável usando a internet. Na época, via Twitter, que era a ferramenta da ocasião. Agora, diria que há uma mudança de formato, a reboque do Instagram. As plataformas estão tornando todos mais imagéticos, é uma espécie de videografia da vida, estamos ‘instagramando’ a vida”, explica ele.

Aggio completa que, em análises de conteúdo, também não é recente a constatação de que a categoria que trata de projetos e propostas políticas perde espaço para a categoria dos recortes da vida pessoal. E cita a campanha histórica de uso da internet por Barack Obama nas eleições presidenciais de 2008 nos Estados Unidos, engajando não só eleitores como também doadores. “Grande parte do conteúdo não era sobre política”, destaca. No Brasil, quem fez explodir a conexão emocional pela via digital foi Jair Bolsonaro em sua campanha presidencial de 2018.

“Do ponto de vista da ciência política, o que temos debatido bastante é a influência do ambiente das redes na construção de um voto bem mais alicerçado em emoções do que no pensamento racional-ideológico que fundamenta a representação política. Neste voto, ganham peso afetos, paixões, ódios, desejos, antagonismos. Que explicam, em grande medida, o ambiente político que estamos vivenciando como um todo”, enumera o cientista político Augusto Neftali de Oliveira, professor da Escola de Humanidades da PUCRS.

Riscos e contradições

Se é verdade que o uso de exemplos e cenas pessoais ocorre desde sempre na política para mostrar que eleitos e eleitores comungam das mesmas pequenas e grandes alegrias e percalços da vida, também é fato, destacam pesquisadores da ciência política e da comunicação, que o uso da tecnologia vem revolucionando esta estratégia.

O professor Augusto Neftali de Oliveira, da Escola de Humanidades da PUCRS, aponta que não há nada de amador ou acidental na profusão de vídeos de agentes políticos e postulantes a cargos públicos nas eleições de outubro que circulam em plataformas como Instagram e TikTok.

Não é segredo, por exemplo, que um simples enquadramento como o close-up, que recorta a imagem desde a altura dos ombros até a cabeça, é uma ferramenta que, ao centrar o foco na expressão do rosto de quem fala com a câmera, tem por objetivo transmitir emoção, aumentando as chances de conexão.

O que, há quase duas décadas, começou com a inserção de gravações silenciosas em ambientes de trabalho e fotos de momentos em datas comemorativas acompanhadas de mensagens padrão, evoluiu na sequência para frases curtas no Twitter, que transmitiam assertividade e segurança. Para a migração, entre TV e internet, de gravações com candidatos em movimento em cenários associados à sua atuação pública. E aí vieram as selfies pessoais, as simulações de entrevistas e conversas, os podcasts e videocasts, e os vídeos que inundam stories e feeds.

“Essa exibição, ela não é estranha ao que as redes sociais se propõem, de ser um espaço de divulgação da vida privada. Os políticos estão se adaptando a esta linguagem. O risco está na dose, na possibilidade de a comunicação política substituir capacidade de discussão de ideias por conexões emocionais. Porque, se a eleição se transforma em um ‘big brother’, o eleitor acaba abdicando de sua possibilidade de governar em favor da satisfação imediata de opiniões e desejos particulares”, projeta Neftali.

O professor e pesquisador Camilo Aggio, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD), é enfático ao assegurar que, sem a comunicação digital, Donald Trump “não teria chegado aonde chegou.” Segundo ele, o ponto positivo em destaque em todo este contexto é também o negativo. “Esta era digital aumentou como nunca a participação das pessoas, e toda a democracia que se preza prevê justamente isto, a maior participação possível. Mas, por outro lado, acabou a ilusão de que maior participação gera necessariamente maior cidadania democrática ou mais democracia”, diz.

Ele observa que o tempo atual mostra a ascensão de muitas personalidades extremistas e a grande falta de habilidade das pessoas em lidar com o divergente. “Contudo, a política é mesmo esta vida de contradições”, conclui.

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