Eleições

Reação à Michelle Bolsonaro expôs críticos do voto feminino

Retrocesso defendido por radicais nos EUA, de que mulheres votam mal e poderiam ser representadas por maridos, circula também no Brasil

Campanhas nos EUA alertam sobre impacto da SAVE Act no voto feminino
Campanhas nos EUA alertam sobre impacto da SAVE Act no voto feminino Foto : Dustin Franz / AFP / CP

Protagonismo feminino e cisão no campo ideológico conservador não são as únicas questões que emergiram dos vídeos divulgados pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. As reações às movimentações públicas de Michelle sobre o cenário eleitoral acabaram dando visibilidade a um outro tipo de manifestação que impacta as mulheres, porque diz respeito a ideais misóginos inspirados em iniciativas que ganharam corpo nos Estados Unidos no governo de Donald Trump.

Foi reagindo à Michelle que o influenciador Paulo Figueiredo, radicado nos Estados Unidos e próximo a Eduardo Bolsonaro, gravou outro vídeo, no qual diz que “Mulher vota estatisticamente mal, principalmente as solteiras, as casadas costumam acompanhar o marido.”

Em outra parte da peça, considera que Michelle prestou um desserviço às mulheres. “As mulheres têm um estereótipo de não se darem bem na política porque não têm equilíbrio emocional, porque agem de forma emotiva, não racional. Eu acho que a Michelle acaba contribuindo com esse estereótipo”, opinou.

Com as falas, Figueiredo reproduz conceitos relacionados ao fim do voto feminino defendidos por grupos de radicais e supremacistas brancos norte-americanos, além de parte de integrantes do governo Trump. Nos Estados Unidos, eles vêm agindo em duas frentes.

A primeira frente é a organização em torno da revogação da 19ª Emenda à Constituição, que dificilmente obterá êxito. A 19ª Emenda, ratificada em 1920, proibiu a negação do voto com base no sexo. Agora, há extremistas nos EUA que defendem a substituição do voto feminino pelo voto familiar, no qual apenas o chefe da família votaria. No Brasil, o voto familiar é referido no Livro Amarelo, uma coleção de fascículos com as análises e propostas do partido Missão.

A segunda frente pode avançar via legislação do Safeguard American Voter Eligibility Act (SAVE Act) ou Lei de Proteção da Elegibilidade do Eleitor Americano, que vem sendo tratada como prioridade por Trump, passou na Câmara dos Deputados e agora está no Senado norte-americano.

A lei trata da exigência para que eleitores comprovem ser cidadãos dos Estados Unidos quando se registrarem para votar. Aprovada, obrigaria a apresentação de documentos acompanhados de uma certidão de nascimento válida. O partido Democrata e organizações da sociedade civil norte-americana têm alertado sobre como a medida pode afetar eleitoras. Usam como base um levantamento realizado em 2023 pela organização não governamental Pew Research Center, que se dedica a pesquisas de opinião pública, análise de dados e tendências sociais. O levantamento apontou que 79% das mulheres casadas adotaram o sobrenome do marido, e, assim, precisariam apresentar documentação nova ou complementar para o registro.

Para a professora titular do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Luciana Panke, aqui os retrocessos idealizados em relação ao voto feminino sequer chegam a ser uma discussão. “São bolhas digitais, que tentam jogar sua posição para a agenda pública, mas entendo que terão muita dificuldade em ultrapassar sua própria limitação”, avalia.

A professora Déborah Vieira, do Núcleo de Comunicação e Humanidades da Universidade Vale do Rio Doce (Univale), por sua vez, considera que é preciso prestar a atenção no movimento, mesmo que ele se demonstre insipiente. “Parece coisa de ficção, mas crises de qualquer espécie sempre podem ser usadas como mote para a retirada de direitos. Estamos falando de disputas de poder e de narrativa, e sabemos o quanto algo nocivo pode ser vendido como bom e importante para todos”, adverte.

No Brasil, o voto feminino foi reconhecido em 1932 e incorporado à Constituição de 1934, mas era facultativo. Só se tornou obrigatório, equiparado ao dos homens, em 1965.

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