Em CPI, Barra Torres diverge de Bolsonaro sobre vacina e cloroquina

Em CPI, Barra Torres diverge de Bolsonaro sobre vacina e cloroquina

Presidente da Anvisa demonstrou preocupação com a alta demanda de estoques do medicamento

AE

Barra Torres disse que não fez uso da clorquina quando esteve com a Covid-19

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Após mais de seis horas de reunião, o presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Antonio Barra Torres, encerrou o seu depoimento na CPI da Covid-19, no Senado, na tarde desta terça-feira. Entre os destaques da audiência, Barra Torres falou sobre suas divergências com o presidente Jair Bolsonaro em relação ao uso da cloroquina no tratamento da Covid-19 e também às vacinas. 

Barra Torres disse desconhecer a interlocução a fim de produzir a cloroquina em laboratórios do Exército. Apesar de reforçar que o medicamento não possui eficácia científica reconhecida no tratamento da Covid-19, ele demonstrou preocupação com a alta demanda e redução dos estoques do medicamento para pacientes que façam uso do remédio para as doenças às quais têm uso comprovado. O chefe do órgão regulador destacou que diante da iminência de falta dos medicamentos, o órgão passou a exigir a apresentação de receituário controlado.

Barra Torres também reforçou que somente os detentores do registro do medicamento podem pedir a alteração da recomendação em bula a fim de incluir novas doenças. Segundo o chefe do órgão regulador, médicos não são proibidos de receitar o uso para doenças que não estejam previstas na bula e destacou que a prática é regulada pelos conselhos de classe e não pela Anvisa.

"Nós temos várias manifestações da agência, numa série de processos do enfrentamento da pandemia, onde vai sempre pontuado a inexistência, pelo menos até o presente momento, de indicações outras por parte destes medicamentos que já apontamos para o enfrentamento da Covid-19", afirmou.

"Kit Covid"

O presidente da Anvisa disse que o órgão não recebeu denúncias sobre a venda do "kit covid", coquetel de medicamentos que não tem uso comprovado contra a doença. Barra Torres, que foi diagnosticado com a doença em maio do ano passado, disse que não fez uso do medicamento. "Não tem eficácia comprovada", reforçou.

"Verdadeira guerra política"

Barra Torres também afirmou que as declarações de Bolsonaro sobre a vacina Coronavac são parte de uma "verdadeira guerra política" que se instaurou no Brasil, que não são ajudam no enfrentando à pandemia. "Entendo que não ajuda, e coloco esse tipo de declaração no contexto de uma verdadeira guerra política que se instaurou em tema que deveria ficar eminentemente na área da ciência", respondeu Barra Torres ao ser questionado sobre a ocasião em que Bolsonaro ironizou a taxa de eficácia da vacina chinesa.

Apesar do tom crítico sobre as falas do presidente, Barra Torres afirmou à CPI que Bolsonaro tem mantido uma "conduta ética" na relação com ele, e que não há "nenhum tipo de pressão" por parte do chefe do Executivo.

O presidente da Anvisa reforçou, no entanto, que existem problemas no recebimento do Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) usado na produção de vacinas contra a Covid-19. "Temos visto problemas de demora pontual de chegada da IFA, em especial da China", disse. 

"Temos dois grandes países que detém primazia na produção do IFA, um a India e outro a China. Esses países acabam influenciando um porcentual maior que 50% da produção de medicamentos do mundo. Observamos dificuldades, momentos que IFA demora a chegar", afirmou o presidente da Anvisa, segundo quem não existem dados que apontem para uma menor qualidade de produtos advindos da China.

Sputnik 

Ainda sobre vacinas, Barra Torres também comentou sobre a Sputnik V. Segundo ele, a análise para uso emergencial da vacina no Brasil está parada no órgão regulador. O pedido para o imunizante, de desenvolvimento russo, foi protocolado no Brasil a pedido da empresa União Química. 

"É muito importante que se entenda que esse processo que fizemos de interrupção ou de negativa da autorização excepcional de importação não deve somar a essa marca Sputnik V nenhum pensamento negativo", reforçou Barra Torres durante depoimento nesta manhã à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado. "Isso faz parte do processo", completou.

Posições anti-vacina de Bolsonaro 

Barra Torres contou que as posições do presidente Jair Bolsonaro anti-vacina vão "contra tudo" o que o órgão tem preconizado. Para ele, a população "não deva se orientar por condutas" que vão nesse sentido. "Ela deve se orientar por aquilo que está sendo preconizado principalmente pelos órgãos que estão em linha de frente do enfrentamento da doença", disse o presidente da Anvisa. 

"Pergunto, qual vossa senhoria avalia ter sido o impacto desse posicionamento do presidente da república em relação à vacinação no Brasil?", foi o questionamento apresentado pelo relator da CPI, Renan Calheiros.

"Todo o texto que vossa excelência leu e trouxe à memória agora, ele vai contra tudo o que nós temos preconizado em todas as manifestações públicas, pelo menos aquelas que eu tenho feito, e aquelas que eu tenho conhecimento que os diretores e gerentes e funcionário da Anvisa tem feito", respondeu Barra Torres.

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