Política

Em Porto Alegre, segundo turno terá campanha polarizada e acirrada

Sem 'outsiders', eleição da Capital têm dois candidatos forjados na articulação política

Com o tempo diminuído em função da pandemia, a série de restrições às atividades de rua e o excesso de candidatos (tanto para a prefeitura como para a Câmara de Vereadores), a campanha do primeiro turno da eleição municipal em Porto Alegre se anunciava enfadonha. Há dois meses, às vésperas de seu início oficial, entre os pré-candidatos ao Executivo a sensação era de insegurança. Nenhum sabia direito o que dizer para conquistar eleitores irritados com as medidas restritivas e a profusão de informações; preocupados com as aulas, o trabalho e o dinheiro; ansiosos por um remédio ou uma vacina; e com os olhos já voltados a um embate que chamava a atenção do mundo, nos Estados Unidos. Em 50 dias, o cenário mudou por completo. Pode ter sido o pouco tempo, a insegurança ante uma disputa diferente, as estratégias de alguns, ou tudo junto. Mas, para além dos discursos sobre propostas, Porto Alegre começa o segundo turno na expectativa de uma campanha polarizada, com uso pesado de desinformação, e muitas articulações de bastidores encabeçadas por jogadores que sabem ‘fazer política’.

Primeiro porque, assim como Manuela D’Ávila (PCdoB) vai tentar formar um bloco de centro-esquerda, Sebastião Melo (MDB) trabalha para arregimentar o que for possível entre PP, PSD, Republicanos, Podemos, Pros, PSL, PL e PSDB. Segundo, porque a polarização funciona bem em Porto Alegre e haverá uma concorrência acentuada, com rearranjos, pelas periferias, onde Manuela havia largado na frente, mas Melo se movimenta bem, e o MDB trabalhou pesado e embaralhou as posições. Terceiro porque, na outra ponta, se conseguir um avanço que hoje parece difícil sobre as classes média e alta, onde sua aceitação já é acima daquela do campo à esquerda, a candidata do PCdoB pode tomar a dianteira.

“Será acirradíssima a competição e o quadro é complicado. Não há personalidade com voto cativo, não há transferência automática dos votos dos que agora estão de fora, e a união de muitos partidos não garante a mobilidade de todo um eleitorado para um lado ou outro. Eles não têm essa força”, adianta o professor Luis Gustavo Grohmann, do Departamento de Ciência Política da Ufrgs. Apesar de todos os fatores, a polarização pode não ‘contaminar’ os embates diretos entre os candidatos, como eles mesmos prometem. “Frente a frente, Manuela e Melo tendem a manter debates mais amenos, porque não possuem aquele perfil agressivo no trato pessoal”, ressalva a professora Silvana Krause, do Programa de Pós-graduação em Ciência Política da Ufrgs. 

Desde o final de setembro, o que se sucedeu em Porto Alegre mostrou que a campanha era morna só na aparência. Nos bastidores, a profusão de notícias falsas, ataques pessoais, ameaças, brigas, xingamentos e expedientes para afastar oponentes da disputa pautou 2020. De público, os impactos do acirramento puderam ser observados mais abertamente sobre três candidatos: Manuela, Nelson Marchezan Júnior (PSDB), que tentava a reeleição, e José Fortunati (PTB), que desistiu da candidatura a menos de uma semana do pleito.

Sobre Manuela, notícias falsas em redes sociais chegavam diariamente aos celulares de um sem número de eleitores (ela obteve decisão judicial para a retirada de mais de meio milhão de postagens). Nos debates, a ex-deputada passou ouvindo ofensas e ilações (pessoais) de um candidato que utilizava os tempos quase que exclusivamente para os ataques.

Marchezan entrou na eleição enquanto sua administração enfrentava a pandemia adotando medidas que nunca agradavam a todas as parcelas da população, o que foi explorado ‘com vontade’ por oponentes do mesmo campo ideológico do prefeito, abrindo dissidências entre seus eleitores de 2016. A 100 dias do pleito, começou a enfrentar um processo de impeachment de contornos políticos e recheado de lances polêmicos no Legislativo e no Judiciário.

Fortunati abandonou a competição após seu vice ter a candidatura indeferida pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) quando faltavam seis dias para o primeiro turno, em uma ação encaminhada por um candidato à vereador do PRTB, partido aliado do ex-companheiro na administração municipal: Melo.

Dos três, só Manuela se manteve no páreo, que vai disputar com o emedebista.