Política

Em sessão tumultuada, Câmara de Porto Alegre adia votação de projeto que mira ocupações

Proposta da bancada do PL visa estabelecer sanções para quem “cometer invasões”. Oposição aponta para criminalização da movimentos sociais

Texto foi retirado de pauta por decisão da vereadora Comandante Nádia
Texto foi retirado de pauta por decisão da vereadora Comandante Nádia Foto : Mauro Schaefer

O projeto que propõe sanções para pessoas que participarem de ocupações estava em primeiro na ordem de votações da sessão desta segunda-feira da Câmara de Vereadores de Porto Alegre, mas não foi apreciado. Após muitos debates no plenário e nas galerias, a autora do texto, Comandante Nádia (PL), decidiu retirá-lo de pauta.

A proposta estabelece "proibições a quem cometer crime de invasão a áreas ou imóveis públicos ou privados" na capital gaúcha, segundo a ementa do projeto. As sanções valem pelo período de cinco anos, contados do trânsito em julgado da respectiva condenação.

Dentre as vedações previstas, está participar de programas habitacionais; receber benefícios ou incentivos fiscais do Município; ser beneficiário de programas de assistência social; receber auxílios, benefícios e participar de demais programas do Executivo Municipal; inscrever-se em concursos públicos ou processos seletivos para nomeação em cargos, empregos ou funções públicas no âmbito do município; e ser nomeado em cargos públicos comissionados (CCs).

“É um projeto que ressalta o óbvio: invasão de propriedade é crime. Quem invadir, não receberá nem benefícios, nem programas sociais. Dessa forma, a gente garante que o comportamento antissocial, e até mesmo anarquista, não seja recompensado com recursos”, defendeu Nádia.

Medida para criminalizar os movimentos sociais

A oposição vê o texto como uma tentativa de criminalizar movimentos sociais, principalmente alguns como MST e MTST. Também aponta para um déficit de políticas de habitação na prefeitura.

“Esse é um projeto ideológico, que mira nos movimentos de luta organizada, que hoje ocupam porque morar é um privilégio na nossa cidade, que tem um déficit habitacional e não tem política de habitação popular. É um projeto nefasto, que pune aqueles que já foram punidos por um conjunto de restrições ao acesso a direitos básicos, como o direito à moradia”, criticou a vereadora Juliana de Souza (PT).

“Não tivemos construção de nenhuma casa no governo passado, mas a gente sabe que esse não é um projeto do governo, no sentido de ter uma coesão da sua base”, continuou.

Nádia retirou o projeto da votação “em respeito à vereadora Fernanda (Barth, do PL, signatária do texto), que está em procedimento cirúrgico” e pediu adiamento por três sessões. Portanto, deve ser retomado apenas na quarta-feira da semana que vem.

Contudo, a oposição aposta que a base de Sebastião Melo (MDB), que conta oficialmente com 22 dos 35 parlamentares, possa estar dividida em relação à proposta da banda do PL.

“O governo não tem acordo. foi apresentado pela bancada do PL e não tem um consenso, que é muito mais amplo no espectro ideológico e este é um projeto puramente ideológico porque não busca resolver o problema da habitação. Mais de 77 mil pessoas não têm residência em Porto Alegre, com muitas áreas irregulares”, afirma a líder da bancada do PT na Câmara, Natasha Ferreira.

Questionada, Nádia garante que o projeto não trata “das Reurbs (moradia em processo de regularização fundiária), nem daquelas ocupações, que pra mim são invasões, que já estão consolidadas: a lei conta a partir da sua publicação”.

Garrafinha foi arremessada

O texto provocou a reação de diversos movimentos sociais, que se organizaram para protestar nas galerias da Câmara. Em determinado momento da sessão, a troca de provocações entre os manifestantes e os vereadores da base do governo culminou no arremesso de uma garrafinha de água vazia das galerias para dentro do plenário.

“Já encaminhamos à presidência a foto dele e o momento em que joga a garrafa para dentro do plenário, colocando em risco a integridade física dos vereadores, para que seja feita a identificação”, declarou o vereador Ramiro Rosário (Novo), no microfone de apartes.

Para a presidente da Casa, o ato “coloca em risco a vida e da integridade física das pessoas, dos vereadores”. “São essas pessoas desqualificadas, que vêm gritando impropérios, me chamar de bandida, de nazista, de fascista, que é crime. Essas pessoas foram identificadas e não vão mais acessar a Câmara”, disse Nádia, em entrevista.

A líder do PT disse que os vereadores do PL provocaram os manifestantes: “Os ânimos se acirraram. Sou contra jogar a garrafa, mas também sou contra fazer esse papelão”, afirmou Natasha.