Política

Emoção marca chegada dos restos mortais de Jango a Brasília

Dilma permaneceu ao lado de viúva do ex-presidente durante cerimônia

Presidenta Dilma Rousseff durante cerimônia de chegada a Brasília dos restos mortais do Presidente João Goulart
Presidenta Dilma Rousseff durante cerimônia de chegada a Brasília dos restos mortais do Presidente João Goulart Foto : Roberto Stuckert Filho / PR / CP
Em uma cerimônia marcada pela emoção, os restos mortais do ex-presidente João Goulart foram recebidos em Brasília no começo da tarde desta quinta-feira. Jango recebeu honras de Chefe de Estado com a execução do hino nacional e salva de 21 tiros de canhão. A presidente Dilma Rousseff esteve o tempo todo ao lado da viúva de João Goulart, Maria Thereza Goulart. Os ex-presidentes Lula, José Sarney e Fernando Collor de Mello estiveram presentes na solenidade.

Após a execução do hino nacional, Dilma e Maria Thereza Goulart depositam uma coroa de flores na urna de João Goulart. Logo após, o cortejo seguiu com a urna carregada por soldados das Forças Armadas.

Pouco antes da cerimônia, a presidente disse via Twitter que a solenidade é uma afirmação da democracia do País. “Hoje é um dia de encontro do Brasil com a sua história. Como chefe de Estado da República Federativa do Brasil participo da recepção aos restos mortais de João Goulart, único presidente a morrer no exílio em circunstância ainda a serem esclarecidas por exames periciais. Essa cerimônia que o Estado brasileiro promove hoje com a memória de João Goulart é uma afirmação da nossa democracia.Uma democracia que se consolida com este gesto histórico”, postou.

A exumação

A exumação do corpo do ex-presidente João Goulart durou cerca de 19 horas no Cemitério Jardim da Paz de São Borja, na Fronteira Oeste. Após o término do processo, a urna com os restos mortais de Jango foi colocada em um caminhão da Defesa Civil. O veículo ficou por cerca de duas horas no quartel da Brigada Militar de São Borja – das 3h30min às 5h30min. Depois, seguiu para o aeroporto da cidade, onde permaneceu até o embarque, finalizado às 7h20min.

A exumação do corpo foi solicitada pela família que acredita que o ex-presidente foi vítima de assassinato por envenenamento. A causa oficial da morte, até o momento e definida na época, foi um ataque cardíaco. Os despojos de Jango devem retornar a São Borja no dia 6 de dezembro. Maria do Rosário assinou um documento se comprometendo com a volta do ex-presidente à cidade onde nasceu.


Presidenta Dilma Rousseff durante cerimônia de chegada a Brasília dos restos mortais do Presidente João Goulart | Roberto Stuckert Filho / PR / CP

A vida de Jango

Eleito duas vezes vice-presidente da República, em 1955 e 1960, João Goulart tornou-se Presidente da República em agosto de 1961 com a renúncia de Jânio Quadros. Em sua posse, em 7 de setembro de 1961, Jango afirmou que todo o país deveria se mobilizar na luta pela emancipação econômica, contra a pobreza e contra o subdesenvolvimento.

Já em 13 de março de 1964, em meio às tensões sociais e à pressão externa, o presidente discursou na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, para um público estimado de 150 mil pessoas. Na ocasião, Jango anunciou as reformas agrária, tributária e eleitoral. Ele ainda afirmou contar com a “compreensão e o patriotismo” das Forças Armadas.

Em 19 de março, realizou-se, no Rio de Janeiro, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, organizada pela Campanha da Mulher pela Democracia (Camde) e Sociedade Rural Brasileira (SBR), entre outras entidades. A marcha tinha como objetivo mobilizar a opinião pública contra a política desenvolvida pelo governo de Jango, que conduziria, de acordo com seus opositores, à implantação do comunismo no Brasil. Em 25 de março ocorreu a Revolta dos Marinheiros, quando marinheiros e fuzileiros navais contrariaram ordens do ministro da Marinha e foram, posteriormente, anistiados por Goulart, acirrando as tensões entre seu governo e os setores militares.

No dia 30 de março, o presidente compareceu a uma reunião de sargentos, discursando em prol das reformas pretendidas pelo governo e invocando o apoio das forças armadas. Em 31 de março de 1964, o comandante da 4ª Região Militar, sediada em Juiz de Fora, Minas Gerais, iniciou a movimentação de tropas em direção ao Rio de Janeiro. A despeito de algumas tentativas de resistência, o presidente Goulart reconheceu a impossibilidade de oposição ao movimento militar que o destituiu. O novo governo foi reconhecido pelo presidente norte-americano, Lyndon Johnson, poucas horas após tomar o poder.

Exilado pela ditadura militar na década de 60, Jango morou no Uruguai e depois na Argentina, onde veio a falecer em 6 de dezembro de 1976. A causa oficial da morte, um ataque cardíaco, nunca convenceu a família, que acusa o governo militar da época, de Ernesto Geisel, de ter envenenando o ex-presidente. Com a análise pericial dos restos mortais de Jango, a expectativa é de que os laudos periciais sejam somados às demais investigações, incluindo as documentais e testemunhais, na busca de um esclarecimento sobre as causas que levaram ao óbito do ex-presidente.

O processo de exumação teve início em 2007, por iniciativa de familiares. Com a instalação da Comissão Nacional da Verdade (CNV), em maio de 2012, foi criado um grupo de trabalho que vem coordenando as investigações em torno da morte de João Goulart. O trabalho é feito, de forma conjunta, pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR) e pela CNV.

Assista ao discurso de posse de Jango:



 
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