O fio da história foi retomado na Feira do Livro de Porto Alegre, através de um gesto que pode parecer simples ao primeiro olhar, mas que pode significar tudo sob a perspectiva correta. O lançamento de um livro que conta a vida do ex-governador Leonel Brizola escreveu mais um capítulo na história do político gaúcho: o primeiro abraço da filha não reconhecida de Brizola, Giselda Topper, com seu único tio vivo, Jesus de Moura.
O encontro ocorreu durante o lançamento do livro “No Fio da História – A vida de Leonel Brizola”, escrito pelo jornalista gaúcho Cleber Dioni Tentardini, publicado pela D’fato Editora Jornalística.
Enquanto Cleber distribuía autógrafos nos exemplares, Jesus esperava tranquilo na fila, até ser surpreendido por alguém. Era Giselda, que saíra do anonimato pela primeira vez para se apresentar ao tio.
“Foi um momento histórico. Ele é o único irmão vivo do Leonel e ninguém conhecia ainda a filha não reconhecida. Foi a primeira vez que ela decidiu aparecer e revelar em público quem ela era”, conta Cleber.
“Seu Jesus foi pego de surpresa. Ela falou no ouvido dele 'sou filha do seu irmão'. Na hora, ele pressentiu. Ficou olhando para ela fixamente, pegou no braço dela. Eu fiquei chocado, foi impactante. Ela se emocionou. Tudo o que ela sempre quis foi o reconhecimento”, relatou ainda o jornalista e escritor.
Giselda batalhou por este reconhecimento e foi Cleber quem contou sua história, em publicação realizada no jornal Folha de S. Paulo no final do ano passado. Giselda possui um exame que aponta 99,99% de certeza da comprovação do vínculo com Brizola. Ela ingressou em 19 de agosto de 2005 com a ação na 13ª Vara de Família do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro em um processo que tramitou sempre em segredo de justiça. Os testes foram feitos com sangue dela, da mãe e de dois filhos de Brizola, João Otávio e Neusa Maria, a Neusinha Brizola. Ainda assim, a Justiça negou medida cautelar e julgou extinto o processo em 2008.
À época, Gisele chegou a tomar um café no Rio de Janeiro com Neusinha, que destacou sua semelhança com o pai de ambas. Ainda que o reconhecimento judicial oficial não tenha vindo, ela pôde ao menos conhecer parte da família que nunca conhecera.
“Foi uma libertação. Ela queria que alguém olhasse para ela e a reconhecesse. Ela é muito parecida (com Brizola) Ela nunca quis nada, só o reconhecimento. Afinal, ela é a cara do Brizola. No final das contas, Jesus foi o primeiro a conhecer a sobrinha”, afirma Cleber.
O jornalista começou a pesquisar sobre o ex-presidente João Goulart em 2003. A dona Neusa Brizola, esposa de Leonel, é irmã de Jango. Naturalmente, Cleber se dedicou também a conhecer a vida do gaúcho que encampou a Campanha da Legalidade para garantir a posse de Jango em 1961, impedindo um golpe militar que se desenhava. Três anos depois, em 1964, os militares triunfariam em instaurar uma ditadura que obrigou Brizola a exilar-se do país.
Após duas décadas de pesquisas, ‘No Fio da História’ busca contar Brizola antes e depois do exílio, resgatando uma célebre frase do trabalhista: “Vamos retomar o fio da história exatamente onde pretenderam interrompê-lo, no Rio de Janeiro”, declarou, ao retornar ao Brasil.
“Acabei levantando toda a história da vida dele. Começamos a fazer um estudo sobre o Jango em 2003. Como o Brizola é cunhado, a pesquisa enveredou para ele. Eu e o falecido João Souza, que virou meu editor, começamos a viajar atrás da vida dele. Não parei mais”, lembra Cleber.