Política

Esquema revelado pela Lava Jato tinha inúmeros operadores

Rede funcionava como correia de transmissão entre contratos superfaturados, empreiteiras e partidos

Uma rede de operadores funcionava como correia de transmissão entre contratos superfaturados, empreiteiras e partidos políticos no escândalo da Petrobras. Para a força-tarefa da Lava Jato, o doleiro Alberto Youssef hoje já não é mais visto como o "funil" exclusivo no esquema de corrupção para quem confluíam as propinas antes da pulverização.

Nos últimos dias, a força-tarefa da Operação Lava Jato passou a investigar um homem apontado como o segundo operador do PP no esquema. Henry Hoyer de Carvalho, de 64 anos, identificado como Henry pelo doleiro em depoimento à Justiça Federal, é sócio em duas empresas e já foi assessor do ex-senador Ney Suassuna (PSL-PB).
Seu nome também havia sido identificado pela Polícia Federal nas agendas do ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa antes do depoimento de Youssef. "Reunião com Maurício e Henry 6/9/12", anotou Costa em uma agenda de 2012 e 2013 apreendida na Lava Jato.

Na agenda foi anotado um endereço atrás do Shopping Barra Garden, no Rio, onde teria ocorrido o encontro, que a PF identificou como sendo de "Henry Hoyer de Carvalho, ex-assessor do senador Ney Suassuna em 2006". A existência de um segundo captador de propina a serviço do PP, somada aos operadores do PMDB, indica que a extensão, cifras desviadas e patentes dos envolvidos exigiam uma organização quase industrial para manter o esquema em funcionamento, segundo os investigadores.

Henry consta como diretor executivo da Associação Comercial e Industrial da Barra da Tijuca (Acibarra), presidida há anos por Suassuna. De abril a novembro de 2005, ele foi assessor no gabinete do ex-senador. Os dois também foram sócios em duas empresas: Sunisa S/A, uma holding de instituições não financeiras, e Rivertec Informática. Ambas já foram fechadas, conforme registros da Receita Federal.

Henry foi exonerado do gabinete de Suassuna no Senado em 2005, quando o então líder do PMDB foi investigado por supostamente favorecer a Empresa Brasileira de Assessoria e Consultoria (Embrasc) em contrato assinado com a Companhia Estadual de Águas e Esgoto do Rio (Cedae), em 2000. Conforme os procuradores, um dos intermediários do negócio foi Henry. Em junho de 2013, o Supremo Tribunal Federal acatou pedido da defesa de Suassuna e extinguiu a punibilidade no caso por prescrição de prazo.
Hoje, Henry é sócio do Centroshopping Participações Ltda, em Vitória, e do escritório de cobrança Unidos. Seu endereço é uma mansão na Barra da Tijuca.

Segundo operador


Em depoimento em 8 de agosto, na Justiça Federal, em Curitiba, onde estão os processos da Lava Jato, Youssef confessou ser operador do PP em nome do ex-deputado José Janene (PP-PR) - morto em 2010 - e indicou um segundo movimentador de propina. Os dois atuavam nos contratos bilionários da Diretoria de Abastecimento da Petrobras. Por meio dela, que foi assumida por Costa em 2004, a pedido de Janene, o PP recolhia 1% de todos os grandes contratos da área na estatal.

"E desses 1% da Diretoria de Abastecimento, era o senhor que fazia a distribuição?", perguntou na audiência o juiz federal Sérgio Moro, que conduz os processos da Lava Jato. "Sim, senhor. Grande parte disso era eu que operava, mais a frente também tinha outros operadores", respondeu Youssef.

O magistrado perguntou "quais seriam os outros operadores". "Tinha Fernando Soares (o Fernando Baiano), que operava com Paulo Roberto Costa, para o PMDB. E tinha um outro que se chamava Henry, que também operava quando o Partido Progressista perdeu a liderança. Aqueles líderes antigos, da turma do sr. José (Janene), perderam a liderança, aí entrou esta pessoa Henry pra que pudesse fazer operações pra eles", afirmou.

Durante a semana, o jornal "O Estado de S. Paulo" tentou contato com Henry em sua casa, na Acibarra e em suas empresas, mas ele não ligou de volta. O jornal enviou perguntas por e-mail, sem resposta. Uma pessoa que atendeu a reportagem na quarta-feira na casa do empresário afirmou que ele estava numa festa e orientou a ligar na quinta. No mesmo dia, a Acibarra promovia um evento. Na manhã seguinte, a informação era que ele não morava mais lá.

Suassuna afirmou que, embora o nome de Henry conste como diretor da Acibarra, "ele não aparece lá faz tempo". "É uma pessoa que conheci. Tive sociedade com ele e ele foi meu assessor. Depois que ele quebrou como empresário, eu não tive mais contato", afirmou. Sobre a citação ao nome do ex-sócio na Lava Jato, Suassuna disse: "Não sei nada disso, mas não acredito. Não o vejo com envergadura para estar envolvido nisso".