Os depoimentos, nesta segunda-feira, de quatro testemunhas na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pousada Garoa, na Câmara de Porto Alegre, tiveram um elemento comum: a precariedade do local que a prefeitura de Porto Alegre mantinha contrato para abrigar pessoas em situação de vulnerabilidade social.
Quartos minúsculos com camas sujas, infestação de baratas e ratos – inclusive dentro da geladeira em que os moradores deixavam suas comidas –, extintores vencidos. “Não havia limpeza nem fiscalização”, relatou o ex-funcionário da pousada, Bruno Morais Martins.
Contratado para prestar ‘serviços gerais’, Bruno era responsável pela recepção, manutenções básicas e cobranças de aluguel. No dia e horário do incêndio, ele estava na recepção e trocou mensagens com o proprietário da Garoa, informando da situação.
O ex-funcionário, que seguiu trabalhando alguns meses na instituição após o incêndio, afirma que o sinistro mudou o funcionamento da instituição.
“A Pousada Garoa antes e depois do incêndio era completamente diferente”, descreveu. Isso porque, segundo Bruno, a partir da tragédia, se deu início às fiscalizações, que aconteciam com aviso prévio, e os funcionários recebiam ordens para “arrumar” algumas coisas, como esconder fios aparentes e pintar os quartos.
Relatou ainda que foi orientado por funcionários a sempre oferecer os “piores quartos” para quem aparecesse com o voucher da prefeitura, uma vez que os contratantes só pagariam pelos quartos depois que os vissem. “O pessoal do voucher não tinha escolha, era aquilo. Isso ou a rua”, concluiu.
O relato de Bruno, o mais longo entre os que prestaram depoimento nesta segunda-feira, foi corroborado pelos outros três que se seguiram, de antigos moradores da Garoa. Todos alegando condições precárias. “Era um quartinho de madeira, um espacinho pequeno, cheio de barata, cheio de rato”, contou Jackson Luiz Gonçalves, ex-morador.
O dia do incêndio
Em seu depoimento à Polícia Civil, Bruno disse acreditar que o incêndio teria origem criminosa. Entretanto, aos vereadores, mudou sua versão. Confirmou, entretanto, que foi orientado antes ao seu depoimento à PC.
Disse ainda que, apesar de ter avistado um homem que não era morador entrando na Pousada horas antes do incêndio, ninguém era permitido a entrar depois das 23h – e ninguém o fez. O fogo começou por volta das 2h30min.
Para ele, o que teria prejudicado a saída dos moradores, resultando na morte de 11 pessoas, foi a dificuldade de acessarem à única porta de saída dos prédios, principalmente em função da única escada em funcionamento, uma estrutura metálica em formato de caracol.
Feridas persistem até hoje
Cleiton Barbosa Moreira, ex-morador, teve de ficar dois meses internado após o incêndio, depois de ter seus braços e pernas queimados. Quando se deu conta que o fogo havia começado, tentou alertar o amigo, que dormia no quarto ao lado. Depois, correu até a escada. Caiu e, de lá, se arrastou até a saída. Para conseguir ajuda, foi até o Mercado Público, quando uma mulher, vendo sua situação, lhe ofereceu carona. Seu amigo não sobreviveu.
Já João Luís Martins Pereira não precisou ser hospitalizado por ferimentos, mas segue com feridas psicológicas até hoje. Perdeu 10 amigos próximos e, para se tratar, teve de sair da Capital.
A reportagem entrou em contato com a defesa de André Kologeski da Silva, dono das Pousada Garoa, mas não obteve retorno. O espaço para manifestações segue aberto.