Após uma reunião nesta quarta-feira entre autoridades do Executivo e do Legislativo de São Borja e peritos da Polícia Federal que vão realizar o procedimento, a comunidade demonstrou preocupação e teme que o corpo de Jango não retorne à cidade. Desde o início da manhã, uma equipe da Comissão Nacional da Verdade (CNV), PF e Ministério Público Federal do Estado (MPF-RS) fazem uma primeira avaliação do jazigo onde o ex-presidente está sepultado, no Cemitério Municipal Jardim da Paz.
Os peritos devem elaborar uma planta em 3D do túmulo e do cemitério. A medida permitirá um planejamento cauteloso da exumação. O procedimento deverá ser acompanhado também por peritos estrangeiros (uruguaios e argentinos), incluindo a Cruz Vermelha. Após o trabalho, os restos mortais do ex-presidente serão transferidos para Brasília, onde serão examinados. A exumação propriamente dita, porém, permanece ainda sem data definida.
O procedimento foi solicitado pela família do ex-presidente para esclarecer a causa da morte de Jango. O exame deve confirmar se ele sofreu um ataque cardíaco, conforme informado pelas autoridades do regime militar. Embora tenha falecido na Argentina, João Goulart foi sepultado em São Borja, sem passar por uma autópsia por imposição dos militares.
A ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Maria do Rosário, reiterou nessa terça, em entrevista à Rádio Guaíba, a importância de se exumar o corpo de Jango, uma vez que a Comissão Nacional da Verdade (CNV) vem esclarecendo capítulos recentes da história do Brasil. Rosário lembrou a tese de suícido de Vladimir Herzog, já desmascarada, bem como o envolvimento do Exército no desaparecimento do deputado federal paulista Rubens Paiva, sumido em 1971.
Jango morreu em 6 de dezembro de 1976 exilado em Mercedes, no Norte da Argentina. Parentes e amigos próximos do ex-presidente dizem que a morte pode ter ocorrido em função da substituição de medicamentos rotineiros de Goulart por parte de agentes da repressão. As investigações conduzidas pela CNV apontaram que o ex-presidente foi mais uma vítima da Operação Condor, montada pelas ditaduras militares de Brasil, Argentina e Uruguai para perseguir opositores.